É preciso mais formação sobre IA nos cursos de engenharia informática das universidades. Esta é a opinião de Luís Pereira, research and development director da Opensoft, que revela à businessIT que os programadores saídos das faculdades que chegam à empresa não sabem trabalhar com essa tecnologia. O responsável fala ainda do que mudou na empresa, que comemora 25 anos de actividade.
A Opensoft criou o departamento dedicado a I&D há uns anos. O que mudou na forma como a empresa inova e desenvolve os seus produtos e serviços?
Sempre estivemos atentos à inovação. Estamos no sector tecnológico e não podemos olhar só para aquilo que sabemos fazer. A nossa opção é estar sempre a actualizar-nos, mas sempre com a perspectiva do valor acrescentado. Já andávamos há uns anos a pensar que precisávamos de uma sistematização e a ideia foi ter um departamento que olhasse para a inovação, a sistematizasse e garantisse que todos os anos era incluída nos vários temas. Antes tínhamos alguma monitorização, mas era um bocadinho mais ad-hoc. Começámos a ter esta necessidade de ter um ponto central onde se impulsionasse, se investigasse, se reservasse o tempo das pessoas para investigar e produzir, quer sejam provas de conceito, quer seja já uma solução definitiva. E ainda bem que criámos este departamento em 2022, porque com a adopção de IA há muita turbulência agora no mercado e, se não estivéssemos organizados, estávamos numa grande confusão.
A experiência acumulada que têm em diversas áreas, como na administração pública, deu-vos acesso a desafios muito concretos. São esses problemas dos clientes que orientam o desenvolvimento e as tecnologias que usam ou é ao contrário?
Diria que é um misto. O factor primário é termos um projecto e uma questão que temos de resolver e as próprias equipas avançam. Há sempre uma preocupação que transmitimos a todas as equipas, que é a de que temos de aumentar a produtividade e também a qualidade. Sabemos que isto é uma tarefa difícil, pois, quando andamos mais depressa, se calhar as coisas ficam mais tortas e, quando as fazemos mais direitas, andamos mais devagar. Mas sempre acreditei, e continuo a acreditar, que é possível encontrar uma solução que ganhe nas duas frentes. Tem é de se gastar e investir algum tempo. E recordo, por exemplo, que decidimos abandonar bibliotecas que usávamos e que foram desenvolvidas internamente. Nessa altura, não existiam bibliotecas disponíveis e desenvolvemos módulos próprios para sermos mais produtivos e garantirmos a qualidade. Em 2011 ou 2012, começámos a modernizar e a usar bibliotecas abertas e optámos por usar a Spring Framework. Embora isto não seja trazido pelo cliente, foi uma necessidade até para atrair talento, mas também para termos garantias de qualidade e de produtividade. Com isto fazemos menos código e o código que fazemos está mais seguro e tem um padrão mais elevado de funcionamento correcto em produção. E isto tem sido sempre incutido pela direcção da empresa. Há sempre aqui este patrocínio da direcção e esta vontade estratégica de termos de aumentar as duas coisas, a qualidade e a produtividade. Isto depois traduz-se em pequenas ou grandes inovações internas nos projectos.
Há muitas empresas que adoptam IA apenas por ser uma tendência, mas a questão deveria ser a escolha do que deve ser automatizado e o que não deve ser. Como é que a Opensoft tem gerido esta dinâmica?
Não temos introduzido tecnologia só porque a tecnologia é a última moda do momento. Aliás, há dois anos, quando começámos a olhar para a IA, estávamos a aprender para que é que isso serviria. E, mais uma vez, olhamos pela lente de como é que se traduz isso em valor acrescentado? Todos vemos empresas que continuam a introduzir estas inovações e a gastar triliões de dólares sem vendas suficientes para suportarem esse investimento. Mas o que é certo é que está a acontecer. O que queremos fazer é olhar para isto com cabeça, ver onde é que está o valor acrescentado, onde é que se pode aplicar em soluções concretas. Há um grande salto entre fazer uns resumos com inteligência artificial ou fazer algum código para mostrar um protótipo e pôr isso em produção num sistema, onde se espera que os resultados sejam perceptíveis, que não iludam e que não sejam diferentes a cada vez que se interage. Há aqui um espaço que tentamos ocupar com o nosso conhecimento, com a nossa consultoria para apoiar os clientes.
A IA ajuda muito na produtividade, mas atenção à qualidade. Estas ferramentas são orientadas para dar resposta e, às vezes, elas dão a primeira resposta e pode não ser a correcta. A nossa postura é que tem de ser adoptada; estamos a olhar internamente, a adquirir cada vez mais conhecimento, a mudar os nossos processos de desenvolvimento de software, a incorporar esta tecnologia nos nossos processos, mas com o devido cuidado e atenção.
Como está a IA a alterar o trabalho das equipas e do desenvolvimento de software na Opensoft?
Gosto da abordagem de primeiro conhecer bem antes de entregar as ferramentas aos clientes. O que estamos a tentar fazer é primeiro aprender e usar e só depois traduzir isso em valor. Já temos uma solução em produção de um chatbot para fazer interacção com o utilizador. Neste momento, estamos a introduzir uma nova funcionalidade, que é o cálculo do imposto com base em dados fornecidos pelo utilizador. Colocamos uma imagem ou um documento, a solução extrai a informação, pergunta se está tudo ok e, a seguir, invoca uma API para calcular o imposto devido. No fundo, é agilizar aqui o que de outra forma seria muitas vezes complexo. Começámos por desenvolver esta solução internamente, fomos testando e melhorando e, quando atingiu alguma maturidade, ficámos confortáveis para a colocar a funcionar num cliente.
Ainda existe uma distância entre experimentar IA e conseguir gerar impacto mensurável. Como é que medem o sucesso de um projecto? É através de produtividade, redução de custos ou existem outros indicadores?
Há muitos anos, decidimos começar a investir em processos mais sistemáticos e bem definidos. Seguimos uma norma americana, a CMMI (Capability Maturity Model Integration), que é uma referência de boas práticas, e temos, ao longo dos anos, melhorado cada vez mais essa definição para termos um resultado mais sistematizado. Derivado do próprio modelo, temos uma série de indicadores que acompanhamos ao longo do ano, alguns dos quais inclusive usamos na avaliação do resultado da empresa. No caso da IA, olhamos mais para indicadores de qualidade para acompanhar algum retorno do investimento. Já há muito tempo que usamos ferramentas de análise da qualidade do código produzido e para verificar se este tem vulnerabilidades. Agora, uma fórmula mágica de «vou investir mil euros aqui e isto vai-me dar dois mil de retorno», não temos.
Ao longo dos 25 anos da Opensoft, quais foram as mudanças tecnológicas que mais transformaram a forma de desenvolver soluções?
Quando começámos, em 2001, não havia grandes bibliotecas e a situação que referi há pouco do Spring foi uma dessas, que nós próprios impulsionámos. Ao longo deste caminho, aconteceu uma série de coisas. Uma delas foi o aparecimento do Chrome. Até então, fazer uma aplicação num browser não era fácil e o Chrome veio impulsionar isso em 2016. Por exemplo, desenvolvemos uma interface mais intuitiva e interactiva para a recolha do IRS em Java Applet e, mais ou menos nessa altura, foi quando a Google disse que era inseguro e que ia acabar com essa possibilidade no browser. Isso provocou uma transformação novamente. Em 2019/2020, o mundo do front-end sofreu também mudanças com muitas coisas novas a acontecer e, mais recentemente, surgiu a IA. Todas as semanas acontecem coisas novas e, portanto, estamos aqui num processo de acompanhamento de velocidade elevada. Estamos num sistema altamente energético em que estão a aparecer sempre coisas novas. E a seguir a esta vai ser outra. Isto não para.
Falou de atrair talento. Tem sido difícil recrutar profissionais especializados? Como é que a IA está a impactar o mercado?
A IA está a ter um efeito engraçado. Temos vários contactos com as faculdades e há algum tempo os professores estão preocupados porque os alunos estão a fazer os trabalhos com a IA e isso representa um problema para a aprendizagem. E, de facto, é. Carregar num botão e sair uma solução feita não é a mesma coisa que perceber o que é que está lá dentro. Mas, quando contratamos pessoas acabadas de formar, com mestrados, notamos alguma resistência na utilização da IA. Temos aqui um paradoxo. Estávamos à espera de que as pessoas já viessem com mais proficiência e afinal não têm assim tanto. Temos, de um lado, os professores a dizer que fazem isto tudo com a IA e, depois, do outro lado, quando chegam, afinal parece que não. Sempre tivemos uma cultura de aprendizagem no trabalho e atrair novos talentos acabados de sair da faculdade não tem sido uma dificuldade. Temos várias críticas em ferramentas online a dizer que somos uma boa escola para começar e isso é um bom passa-palavra.Estamos com alguma dificuldade em atrair talento com mais experiência. Mas estamos a conseguir atrair talento e este ano já crescemos a equipa em 11 pessoas, mas temos esta situação. Em termos de tecnologia, quando se desenvolve com IA, é preciso ter uma capacidade maior de revisão e ir aos pontos certos e, para uma pessoa sem experiência, isto é muito difícil. A nossa cultura diz que, ao fim de seis, sete, oito anos, a pessoa já começa a ter esta visão de ir aos pontos cirúrgicos que realmente são importantes. Esta é a parte crítica e também onde estamos a ter mais dificuldade no recrutamento. Uma pessoa que está cá há três anos, se calhar sabe mais do que uma pessoa que está há dez anos noutra empresa do mercado porque aprende muito na nossa equipa. Tem formação, mas sobretudo acompanhamento on-the-job e isto é muito intensivo nos projectos.
No entanto, parece que na faculdade falta introduzir a IA no ensino. Os alunos têm de aprender a usar a IA. Não quer dizer que esta falha aconteça com todos os professores ou faculdades, mas falta fazer parte, de forma sistemática, da aprendizagem em todas as faculdades. A IA faz parte da profissão futura destes alunos e, portanto, tem de estar dentro das disciplinas para estarem preparados quando chegam ao mercado de trabalho. As pessoas têm de já chegar ao mercado de trabalho a saber usar estas ferramentas. Não pode ser a empresa a ensinar tudo.
Pode dar alguns exemplos de soluções que tenham desenvolvido que realmente sejam diferenciadoras e inovadoras ao longo destes 25 anos?
Gostamos muito da nossa solução que foi a primeira de todas, a recolha do IRS, em 2001. E que se traduziu em muitas outras, como a do IVA e do IRC. Ao longo dos anos temos introduzido e apoiado inovações como, por exemplo, o IRS automático. Não a desenvolvemos, mas incutimos esse bichinho e ajudámos a implementar. Também fizemos a app do IRS e outra solução foi o documento de transporte. Este foi um sistema diferente porque tem de funcionar 24 horas, ao contrário dos outros sistemas de recolha de então, que funcionavam nas horas úteis. Tenho muito orgulho de ter ajudado a montar um sistema destes. Outra, em 2012, foi a infraestrutura para comunicação por web services para a AT, em que saímos da nossa zona de conforto. Os responsáveis internos do projecto foram muito pressionados por grandes fabricantes, que chegaram a enviar artigos a dizer que aquilo não era seguro, e tivemos de os apoiar em várias dimensões e não só no desenvolvimento de software.
Com base na sua experiência, quais serão as tecnologias mais disruptivas nos próximos anos e os principais desafios?
É uma pergunta difícil porque, na tecnologia, aquilo que hoje é verdade amanhã não é. O nosso compromisso é estarmos sempre atentos ao que aí vem. E agora, neste momento, há muita turbulência na IA. Ainda falta assentar a poeira e ter certezas sobre onde funciona, mas o potencial é enorme. Daqui a 25 anos, a Opensoft tem de ser uma empresa de pessoas que percebem como é que usam a IA e que fazem dez vezes ou vinte vezes mais do que fazemos hoje. E entregar mais aplicações, mais depressa e garantir a mesma qualidade. Por outro lado, há o desafio das universidades. Os alunos têm de vir já a saber de IA porque agora há uma diferença enorme. Chegam a querer aprender e não dá, são eles que têm de trazer isso para dentro da empresa.
Pode fazer um balanço dos 25 anos da Opensoft e indicar como gostaria de ver a empresa dentro de cinco anos?
Sempre tivemos uma missão que é aplicar os nossos conhecimentos para entregar mais valor às entidades e pessoas, no fundo, à sociedade. E não estamos aqui só para fazer software por software. O que queremos é que as pessoas que estão cá a trabalhar consigam usar as suas faculdades para que, da melhor forma, consigam entregar algo com muita qualidade ao cliente. Temos primado por isso no crescimento. A minha visão é continuar o crescimento, mas garantir que as pessoas que passam por cá e que estão cá conseguem continuar a fazer isto e a disseminar isto. Seja com IA, seja com outra coisa qualquer que vai aparecer, que consigam ter a capacidade de absorver essa aprendizagem e traduzi-la em coisas que de facto consigam usar para melhorar o funcionamento e que reduzam custos à sociedade. E gostava que neste crescimento não se perdesse esta capacidade de aprender, ter análise crítica e, no ponto em que acho que trazemos valor aos nossos clientes, que é, perante uma panóplia de tecnologias que existem, conseguir traduzir isso numa solução que tem mais valor para o cliente e, por sua vez, para os seus utilizadores e clientes.
O balanço é muito positivo. Fui a segunda pessoa a entrar, faço 25 anos de empresa em Fevereiro, e hoje somos cerca de 120 colaboradores. É um longo processo de crescimento e estamos a passar por provas apuradas porque uma coisa é crescer até aos cem e agora outra é chegar aos mil. São coisas diferentes. Estamos a repensar como evoluir e que estratégias vamos adoptar, mas não gostaria de perder esta missão de continuar a trazer para a equipa pessoas que conseguem pensar na tecnologia e traduzir isso em soluções relevantes que tragam valor aos clientes. Foi isso que conseguimos até agora e é assim que queremos continuar.









