A SpotGov quer transformar a forma como as empresas acedem aos concursos públicos, usando inteligência artificial para automatizar pesquisas, analisar documentos, evitar erros administrativos e tornar o mercado mais transparente e competitivo.
Como definem a vossa SpotGov? Como se apresentam ao mercado?
A SpotGov está a criar o sistema operativo para o futuro da contratação pública. Existe uma arbitragem muito grande entre a relevância do processo comercial entre o sector público e o sector privado e a quantidade de atenção, competência e ferramentas tecnológicas que estão a ser alocadas à transformação desse processo. Na prática, estamos a falar de um “nicho” que representa cerca de 15% do PIB mundial. Na Europa, por exemplo, falamos de cerca de dois biliões de euros e, em Portugal, de 18 mil milhões de euros. E os processos continuam praticamente iguais há 20 ou 30 anos. As empresas ainda dependem de processos totalmente manuais, burocráticos e complexos, quando já existe tecnologia capaz de criar soluções muito melhores e automatizar e optimizar todo o processo de forma substancial. A nossa visão é usar inteligência artificial para promover essa transformação.
Que tipo de tarefas concretas conseguem hoje automatizar? E até que ponto isso altera a forma como as empresas preparam as suas propostas? O que é que na prática conseguem hoje realmente fazer?
Olhamos para o processo de contratação pública dividido em cinco grandes blocos. O primeiro é encontrar as oportunidades certas, neste caso do lado das empresas. O segundo é analisar os concursos da forma mais rápida e automatizada possível, para perceber se interessam ou não. O terceiro é gerir os concursos com base em urgências e prioridades dentro da equipa. Depois temos o processo de candidatura. Aqui, o que fazemos é uma revisão de todas as propostas para ajudar a evitar potenciais desqualificações. Neste momento, 23% das propostas desqualificadas são-no por questões administrativas e não por falta de valia técnica. É um número altíssimo e queremos reduzir isso ao máximo. Por fim, o quinto bloco é a utilização dos dados históricos do mercado. Criamos dashboards inteligentes que permitem perceber o que está a acontecer e tomar decisões baseadas em dados e não apenas em instinto.
Falou nos 23%. Falamos de ocorrências administrativas, certo? Quais são os erros mais frequentes nos concursos públicos? E de que forma é que a vossa tecnologia pode ajudar a evitá-los?
Há vários tipos de erros numa proposta que não têm necessariamente a ver com a valia técnica. Por exemplo: falta de documentos, falta de assinaturas, ausência de requisitos específicos, erros em dados, nomes ou especialidades, sobretudo quando estamos a falar da contratação de serviços. Depois há situações que parecem técnicas, mas acabam por ser administrativas. Imaginemos um contrato para fornecimento de computadores. A entidade pede 20 computadores e a proposta refere apenas 15. Quem consegue fornecer 15 provavelmente consegue fornecer 20, mas a proposta está errada e, como a entidade precisa de 20, a candidatura deixa automaticamente de servir. Estes tipos de erros são muito mais frequentes do que se pensa e levam a exclusões completamente evitáveis.
Neste contexto, muitos concursos acabam por receber apenas uma proposta?
Há vários casos em que isso acontece, sim.
Acredita que ferramentas como a SpotGov podem também contribuir para aumentar a concorrência, democratizando o acesso à contratação pública, sobretudo num país de pequenas e médias empresas?
Completamente. O objectivo da SpotGov é precisamente democratizar o acesso à contratação pública. Ao tornar o processo mais simples, mais rápido e mais barato, mais empresas conseguem participar com menos esforço. Isso significa que o processo se torna naturalmente mais competitivo, porque mais empresas passam a conseguir candidatar-se de forma simples. E quanto maior a concorrência, maior é a possibilidade de escolha e melhor tende a ser a alocação orçamental do Estado. Ao mesmo tempo, as empresas também passam a competir mais naquilo que oferecem. Os preços acabam por aproximar-se mais do verdadeiro valor de mercado, quer para cima quer para baixo. Como referiu, há concursos que têm apenas um candidato, ou até nenhum, porque não houve tempo suficiente, porque não chegaram às empresas certas ou porque simplesmente não houve concorrência. Mas também há casos em que o preço está mal definido. Ter mais empresas no processo ajuda a normalizar o mercado através da lei da oferta e da procura e leva a uma alocação orçamental mais eficiente. Identificámos quatro números principais para validar este problema. O primeiro é que até 10% das oportunidades podem ficar por descobrir se a pesquisa não for feita correctamente. O segundo é que, segundo dados da Comissão Europeia, uma proposta pode custar até 5500 euros a uma empresa, desde o momento em que encontra a oportunidade até à submissão da candidatura. Naturalmente, empresas mais pequenas não conseguem responder a tudo e acabam por se concentrar apenas nas propostas mais relevantes. O terceiro é o tal número dos 23% das propostas desqualificadas por razões administrativas. E o quarto é particularmente chocante: 42% de todos os procedimentos acabam por fechar com zero candidaturas ou apenas uma candidatura. Isto mostra não só problemas na definição de preços, mas também uma grande concentração nas empresas que conseguem responder em massa, enquanto muitas outras ficam de fora. O nosso objectivo é ajudar as empresas a ver o Estado como um verdadeiro veículo de crescimento, ao mesmo tempo que democratizamos o acesso aos contratos públicos e promovemos uma alocação orçamental muito mais eficiente.
Hoje é inevitável que a inteligência artificial esteja no centro do debate mediático, sobretudo em questões relacionadas com transparência e fiabilidade. Como é que vocês garantem que a IA utilizada na análise dos concursos públicos mantém rigor e segurança na informação disponibilizada aos clientes?
Usamos inteligência artificial em várias dimensões diferentes, mas o objectivo nunca é substituir totalmente as pessoas. Queremos criar um sistema operativo para a contratação pública, mantendo sempre validação humana. Por exemplo, usamos inteligência artificial na pesquisa de concursos. Hoje, a pesquisa é feita através de palavras-chave, códigos e CPV. É um sistema extremamente determinístico. Se uma determinada palavra não estiver exactamente no título do concurso, ou se o código estiver mal associado, a empresa simplesmente perde a oportunidade. Dou um exemplo simples: se uma empresa pesquisar “energia” e o concurso estiver identificado com “electricidade”, pode não encontrar esse procedimento. O que fizemos foi criar uma pesquisa semântica e contextual. A empresa diz-nos o tipo de concursos que procura e nós analisamos todas as oportunidades que se enquadram nesse contexto, independentemente das palavras exactas utilizadas. Isso permite encontrar muito mais oportunidades. O mesmo acontece na análise documental. Actualmente, as empresas descarregam dezenas ou centenas de páginas e passam horas a ler documentação para perceber se um concurso faz sentido. Nós integramos automaticamente os documentos, analisamo-los com inteligência artificial e geramos relatórios resumidos. Em vez de perder uma manhã inteira, uma empresa consegue perceber em cinco minutos se aquele concurso é relevante ou não. Depois temos toda a vertente de market intelligence. Trabalhamos sobre a base de dados do IMPIC, que contém mais de dois milhões de procedimentos ao longo dos últimos anos. É humanamente impossível analisar tudo aquilo manualmente. Com inteligência artificial conseguimos tratar esses dados e criar muito mais transparência. Qualquer pessoa consegue perceber que entidades públicas trabalharam com determinadas empresas, em que datas, com que valores e em que contexto. Também é possível perceber que concursos têm sempre os mesmos concorrentes ou identificar áreas onde praticamente não existe concorrência. Tudo isto torna o processo mais rápido, mais automatizado e também muito mais transparente.
Comunicaram que em apenas um ano já apoiaram empresas em cerca de 1,5 mil milhões de euros em contratos públicos. O que explica este crescimento tão rápido? E quais são agora os próximos passos da empresa em termos de inovação e expansão?
A explicação do crescimento é relativamente simples: existe uma diferença muito grande entre o estado actual do mercado e aquilo que nós oferecemos. O processo continua extremamente arcaico e nós apresentamos uma solução baseada em tecnologia actual e bastante avançada. Qualquer empresa que olha para isto percebe rapidamente que não pode continuar a trabalhar da mesma forma. Em menos de um ano já trabalhamos com mais de 100 clientes em Portugal, de sectores e indústrias muito diferentes. No total, essas empresas representaram cerca de 1,5 mil milhões de euros em concursos públicos no último ano. Na prática, existe aquilo a que se chama product-market fit. Estamos a resolver um problema muito relevante e a diferença entre a solução tradicional e aquilo que oferecemos é muito significativa. Relativamente aos próximos passos, desde o início quisemos posicionar-nos como um player europeu e não apenas português. Valorizamos muito o desenvolvimento do nosso país, mas acreditamos que este é um problema global. Por isso, estamos a expandir rapidamente para outros mercados europeus. Ao mesmo tempo, queremos continuar a desenvolver o produto a uma velocidade muito elevada. Eu costumo dizer à equipa que somos como um atum: se paramos de nadar, morremos. A tecnologia evolui todos os meses e nós queremos estar constantemente na linha da frente. O objectivo é continuar a desenvolver novas funcionalidades, tornar o produto cada vez mais abrangente e consolidar a SpotGov como um verdadeiro sistema operativo para a contratação pública.
Hoje a vossa equipa é composta por quantas pessoas e com que competências?
Neste momento somos cerca de 12 pessoas, mas estamos a crescer constantemente. Se tivermos esta conversa daqui a seis meses, provavelmente já estaremos mais perto das 20. A equipa divide-se essencialmente em duas áreas: Product e Growth. Metade da equipa é composta por engenheiros e pessoas focadas no desenvolvimento do produto e na utilização das tecnologias mais avançadas. A outra metade está mais ligada a vendas, gestão de clientes e marketing.









