Trezentos mil. É este o défice de profissionais de cibersegurança que a Comissão Europeia estima existir, hoje, na União Europeia. Em Portugal, o número exacto é mais difícil de fixar, mas a sensação no terreno, partilhada por responsáveis do sector ouvidos pela businessIT, é unânime: faltam pessoas. Só que esse é, dizem quase todos, o problema mais fácil de enunciar. E o menos importante de resolver.
A escassez de profissionais de cibersegurança é real, dizem os especialistas. Mas… há muitos «mas» à mistura e o diagnóstico parece estar longe de se esgotar na falta de pessoas. O que atravessa o sector, de forma cada vez mais evidente, dizem, é um desajuste mais profundo entre as competências disponíveis no mercado e aquilo de que as organizações precisam para responder a um contexto de risco digital que, no mínimo se apresenta mais complexo, mais acelerado e mais difícil de antecipar. «Na prática, as organizações precisam de profissionais tecnicamente sólidos, mas também capazes de analisar risco, compreender contexto e apoiar a tomada de decisão», disse à businessIT Ricardo Neves, responsável de comunicação e marketing da ESET Portugal. «As organizações vão sentir sobretudo falta de profissionais capazes de detectar ameaças, investigar incidentes e responder de forma eficaz em contextos operacionais cada vez mais complexos».
A mesma leitura é feita por Luís Lobo, head of Cybersecurity Services da NTT Data Portugal, para quem o desafio do talento em cibersegurança «é estrutural, não apenas conjuntural, reflectindo um desajuste profundo entre competências disponíveis e necessidades reais das organizações num contexto de crescente complexidade tecnológica e risco digital». Em Portugal, reforça o especialista, a oferta formativa em cibersegurança permanece insuficiente, «tanto em volume como em especialização, abrangendo cursos profissionais, politécnicos e universitários, limitando a criação de um pipeline sustentável de talento qualificado».
Mas há uma lacuna mais subtil, mas crítica: o desenvolvimento do mindset de segurança. «A formação académica continua, em muitos casos, focada em como as tecnologias funcionam, mas não suficientemente em como podem falhar, ser exploradas ou abusadas». Esta ausência de uma abordagem adversarial — essencial em cibersegurança, garante o especialista — resulta em profissionais tecnicamente competentes, mas menos preparados para antecipar e mitigar riscos reais.
Também Ricardo Pinto, security sales manager da V-Valley Portugal, considera «inegável» a existência de um défice global de talento, mas sublinha que «o maior desafio é qualitativo, dado que as organizações não procuram apenas mais pessoas, procuram perfis com competências específicas e actualizadas face às actuais necessidades». No fundo, reforça que, além da escassez de recursos, «existe um desajuste estrutural entre as competências disponíveis e as necessidades reais das organizações».









