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Mulheres nas TI: é preciso ser ‘one of the guys’?

Mulheres nas TI

Tecnológicas têm de atrair mais mulheres 

Paula Panarra assumiu a direcção-geral da Microsoft Portugal num momento em que a empresa estava a iniciar uma grande transformação interna. Do ponto de vista profissional, diz nunca se ter sentido prejudicada ou beneficiada por ser mulher. «Nunca senti dificuldades no trabalho directo com as equipas, nunca vi a minha autoridade diminuída ou posta em causa». Aliás, na Microsoft Portugal, 50% dos elementos da direcção executiva são mulheres.

«Na nossa subsidiária, as mulheres representam 31% dos nossos gestores de pessoas. Na região da Europa Ocidental, na qual Portugal está inserido, em doze mercados, sete são liderados por mulheres. Por isso, diria que, pelo menos na empresa que lidero, essa realidade não se reflecte no nosso trabalho diário».

É “público” que a área das Tecnologias de Informação, Ciências e Matemática, de forma geral, não tem conseguido atrair os talentos que necessita. Paula Panara explica que é com alguma preocupação que vê, por exemplo, dados do Eurostat, relativos a 2016, em que a média de cientistas e engenheiros homens foi de 60% e, de mulheres, 40%.



«Em Portugal, no mesmo período, essa diferença estava um pouco mais diluída: cerca de 52% contra 48%, respectivamente. Ainda assim, e em particular na área tecnológica, o gap ainda é muito significativo». Por isso, Paula Panarra adverte ser importante que jovens, pais, professores compreendam que o actual mundo digital coloca novos desafios e que as competências tecnológicas são, cada vez mais, um factor determinante no contexto académico e profissional. «As estratégias de qualificação dos portugueses devem começar cedo e as tecnológicas têm de procurar também atrair as profissionais do sexo feminino».

 

Atitude e determinação

Maria de Lurdes Carvalho, vice-presidente para a Europa da área de data center e soluções industriais da Schneider Electric, nunca sentiu que o facto de ser mulher, per si, tenha trazido benefício, prejuízo ou influência durante o seu percurso. «Optei pela Engenharia Electrónica e Comunicações pelo meu livre interesse pela área.

A partir da minha formação surge todo um conjunto de cenários e circunstâncias que contribuíram para chegar onde estou hoje. Creio que tenho uma enorme capacidade de me desafiar e uma atitude aberta para os desafios que me têm sido colocados». É uma questão de atitude e determinação, diz esta executiva.

Na sua opinião a questão ‘mulheres na tecnologia’ não deve passar pela constituição de quotas de mulheres para trabalhar nesta área, mas no contributo das mulheres para o desenvolvimento da mesma. «Por isso, considero que é fulcral apostar em novas formas para despertar o interesse das jovens pela área da tecnologia. Ao garantir que todos compreendem de que forma a tecnologia se materializa na nossa rotina estamos a assegurar que esta será uma área atraente para todos».

 

Não interessa o género, mas as qualificações 

É mulher, estrangeira e com sotaque estranho. Zuzana Fabianová Janeiro, directora-geral das operações da Wondercom no País, diz que nada disso se apresentou como uma desvantagem ou um benefício. «No mundo de negócios, no final do dia contam os resultados, a nossa capacidade de fazer acontecer e de honrar os compromissos. É isso que faz a diferença».

Aliás, Zuzana Fabianová Janeiro acredita mesmo que as empresas não têm preferência e limitam-se a ir buscar profissionais disponíveis. «A escassez de profissionais qualificados será resolvida gradualmente à medida que as escolas tenham capacidade para aumentar o número de finalistas. Vários estudos comprovam que as mulheres tendencialmente obtêm qualificações mais altas. Eventualmente, no futuro serão as mulheres a estarem mais bem preparadas para estas oportunidades profissionais».

Interesse pelas tecnologias vai aumentar

Luísa Gueifão, presidente do conselho directivo da Associação DNS.pt admite que a gestão que faz é «no feminino», mas nunca interiorizou tal facto como uma vantagem ou desvantagem. «Com isto não pretendo desvalorizar o preconceito que ainda existe e muitas vezes me foi revelado, mas que sempre tentei que não influenciasse as escolhas e o desenvolvimento da minha profissão».

A presença das mulheres nesta área de actividade tem aumentado, mas é um processo que «está a ser realizado a par e passo com as alterações que se têm verificado na sociedade em termos de igualdade de géneros». Não obstante, e tratando-se de mudança de valores e mentalidades, é sempre um processo que Luísa Gueifão acredita ir demorar o seu tempo. «O aumento das competências digitais – que hoje tem o seu início no ensino básico – também contribui para que o interesse pelas tecnologias seja cada vez mais transversal».

Mulher, esposa e mãe de três filhos, Nathalie Risacher, senior country manager da Natixis em Portugal, admite que, infelizmente, na maioria dos casos, ser mulher continua ainda a ser sinónimo de salários inferiores. «Principalmente em funções de gestão e liderança. Neste sentido, irei sempre lutar pela igualdade salarial e de benefícios entre sexos», salientou à businessIT. Por outro lado, o facto de ser mulher também traz vantagens, principalmente em termos de diálogo. Diz Nathalie Risacher que numa mesa cheia de homens, a visão de uma mulher é respeitada de forma diferente. «Tendemos a ser mais ouvidas, como tendo algo de valor a acrescentar».

Quanto ao facto de as mulheres estarem menos inclinadas a escolher os cursos ou formações mais técnicas ou tecnológicas, Nathalie Risacher garante que tudo começa na educação. «E não me refiro aos sistemas educativos: refiro-me à educação que começa em casa. Desde cedo, as meninas são formatadas para brincar às tarefas domésticas, às famílias… Nunca para brincar com jogos de estratégia ou peças de montar. Essa visão sexista e tão ‘cega’ da educação tem de terminar. A responsabilidade está em quem educa».

Por outro lado, a country manager crê ser necessário reconhecer que, de uma forma geral, «as mulheres têm um pensamento muito mais intuitivo e emocional, enquanto que os homens, práticos e orientados para a acção, acabam por se sentir mais confortáveis com o mindset binário ligado às tecnologias».

Se fosse legisladora, Nathalie Risacher «forçaria as empresas a partilhar publicamente os salários pagos a homens e mulheres». Para além disso, daria mais flexibilidade, principalmente de horários e formas de trabalhar, dando como exemplo o teletrabalho.

E sim, o mundo das tecnologias ainda é um de homens. «Dou-vos o exemplo da Natixis: em 300 colaboradores, somos apenas 50 mulheres. Gostaríamos de aumentar este número o mais possível. Mas ainda não é fácil. Lá está: a forma como educamos os nossos filhos tem de mudar».

Em Fevereiro, o presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, anunciou a nomeação de novos funcionários para cargos de topo na burocracia europeia, passando a haver 36% de mulheres.

Predisposição ou educação?

Há alguma predisposição natural para que as mulheres escolham os cursos menos técnicos ou é-nos “imposto” pela sociedade? A psicóloga Joana Diz concorda com ambas as possibilidades. «Devido à sua história educacional e biologia, tanto a mulher como o homem foram desenvolvendo determinadas aptidões cerebrais que naturalmente culminaram numa maior ou menor eficácia em determinadas competências e tarefas, que fazem com que interfira na escolha futura dos cursos».

Contudo, avança que recentes estudos têm demonstrado cada vez menos estas diferenças entre géneros, porque a sociedade e seus valores educacionais têm vindo a sofrer profundas transformações, o que nos exige a uma nova readaptação. «Esta passa, inevitavelmente, pela capacidade do nosso sistema nervoso se alterar ao nível estrutural e funcional face a novas experiências – a neuroplasticidade».

Joana Diz destaca ainda que vivemos numa sociedade predominantemente patriarcal que ainda insiste em manter estas diferenças de competências entre o homem e a mulher de um antigo paradigma praticamente já inexistente, criando algumas resistências e barreiras face à mudança natural evolutiva da humanidade, principalmente para um novo lugar da mulher no sistema profissional.

Para que esta “desigualdade” seja menos vincada, a psicóloga apela a uma mudança de consciência. «Acredito que vivemos tempos de profundas alterações educacionais e essas desigualdades já vão sendo cada vez menos vincadas, porque as necessidades também são outras e cada vez mais emergentes». Esta «separação estrutural», como classificou Joana Diz, está a ser bastante abalada, sendo imprescindível para uma nova reorganização e consequente nascimento de um paradigma mais equilibrado e unificado entre géneros.

«Assim sendo, a verdadeira mudança passa por uma reeducação individual a todos os níveis e dimensões psicológica e emocional do ser humano – homens e mulheres. Terá sempre de se desenvolver uma nova visão e consciência “para dentro” para que ela se possa manifestar “para fora”, para a sociedade e mundo exterior. Questões de raiz como esta demoram o seu tempo a transformar, mas sinto que estamos num bom caminho evolutivo».

 

Publicado na businessIT 12, de Março de 2018

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