Reportagem

DTx CoLAB quer transformar conhecimento em competitividade

Portugal produz conhecimento científico, mas continua a falhar quando chega o momento de o transformar em produtos, empresas mais competitivas e crescimento económico. Para André Matos, CEO do DTx CoLAB, o maior desafio do País já não passa por gerar conhecimento, mas por conseguir levá-lo da academia para a economia.

© DTx CoLAB

O desafio não é propriamente novo, mas continua a ser uma das principais frentes de batalha da economia portuguesa: transformar o conhecimento produzido nas universidades e centros de investigação em inovação com impacto nas empresas e na competitividade do país. No DTx Open Tech Day, que decorreu na Universidade do Minho, André Matos, CEO do laboratório colaborativo, analisou a posição de Portugal nos principais indicadores internacionais de inovação e competitividade. O objectivo, explicou, era responder primeiro ao ‘porquê’ – perceber onde está o País, quais são os principais bloqueios e porque continua a existir espaço para entidades como o DTx – antes de mostrar de que forma o laboratório procura responder a esse desafio.

Vejamos o índice anual da World Intellectual Property Organization (WIPO), que analisa 139 países. Portugal ocupa actualmente a 31.ª posição e surge em 16.º lugar entre os Estados-membros da União Europeia. «Entre os indicadores em que Portugal apresenta melhor desempenho estão os artigos científicos, particularmente as publicações em co-autoria entre empresas e academia, uma área para a qual o DTx CoLAB também procura contribuir directamente. Mas há igualmente motivos de preocupação. Um deles é o chamado dividendo demográfico. Estamos no lugar 131 entre 139 países. Isto não é algo que se mude facilmente e afecta directamente a nossa capacidade para atrair e desenvolver talento».

O mesmo contraste surge quando o foco passa da inovação para a competitividade. Portugal ocupa o 41.º lugar no índice do IMD e continua classificado como ‘Moderate Innovator’ no European Innovation Scoreboard. Para André Matos, estes indicadores revelam uma realidade aparentemente contraditória. «Pontuamos excepcionalmente bem naquilo que são os apoios à ideia empresarial. Temos uma infra-estrutura digital muito forte, com fibra, cabos submarinos e ampla disseminação. Também pontuamos bastante bem nas co-publicações público-privadas. Contudo, quando olhamos para a tradução desse conhecimento em patentes ou em produtos, estamos bastante abaixo daquilo que seria o ideal».

Transformar conhecimento em actividade económica
O executivo identifica que o problema não está na capacidade científica do País, mas na dificuldade em transformar conhecimento em actividade económica. «Temos PME com inovação de produto acima da média europeia, mas quando olhamos para a exportação de serviços intensivos em conhecimento já pontuamos mal. Portanto, há oportunidades».

Outro dos aspectos que procurou desmontar foi a ideia de que basta aumentar o investimento em investigação para melhorar automaticamente a competitividade. Recorrendo à comparação com Espanha e Itália, explicou que os três países apresentam níveis de investimento relativamente semelhantes em investigação e desenvolvimento enquanto percentagem do PIB, mas obtêm resultados muito diferentes ao nível da produtividade. «O que podemos inferir é que Espanha e Itália têm estruturas empresariais mais especializadas, empresas de maior escala, maiores mercados internos e maior peso em sectores de elevado valor acrescentado».

Em Portugal, acrescentou, a realidade continua a ser diferente. «Fiquei surpreendido quando ouvi recentemente que, das 530 mil empresas que existem em Portugal, apenas cinco mil investem em investigação e desenvolvimento. Temos uma base muito estreita de empresas que realmente vêem a inovação e a investigação como um factor diferenciador de competitividade. A oportunidade está aí. Não é apenas fazermos mais com as empresas que já são inovadoras; é evangelizar, mobilizar e capacitar as empresas que querem entrar na inovação como factor diferenciador de competitividade».

É precisamente neste ponto que André Matos enquadra o papel do DTx CoLAB enquanto laboratório colaborativo. «Desenvolvemos tecnologias inovadoras em colaboração, sobretudo com as empresas nossas associadas e outras empresas parceiras, precisamente para levar a transformação digital ao terreno, da academia para a economia».

Facilitar a adopção pelas empresas
Mais que desenvolver tecnologia, explicou, o objectivo passa por facilitar a sua adopção pelas empresas. «Aqui, o nosso papel não é substituirmo-nos ao mercado, mas ajudar o mercado a ir buscar o conhecimento que está na academia e implementá-lo nos seus negócios. É para suprir o ‘gap’ que aparece entre os níveis de maturidade tecnológica e ultrapassar o chamado ‘Vale da Morte’». Uma das formas de o fazer passa pelos chamados projectos específicos, pequenas provas de conceito que permitem validar tecnologias antes de avançarem para programas de financiamento de maior dimensão. «Só nesta abordagem já conseguimos captar cerca de 14 milhões de euros e é este modelo que queremos continuar a desenvolver».

No evento, o crescimento da organização foi outro dos temas abordados. Segundo André Matos, o impulso dado pelo PRR permitiu mais do que duplicar a equipa entre 2022 e 2024, estando agora definida uma meta de estabilização em cerca de uma centena de profissionais altamente qualificados. Mas, mais do que o número de investigadores, interessa o impacto que estes acabam por ter nas empresas. «Muitos investigadores que fazem percurso no DTx continuam esse percurso nas empresas. E, com essa pessoa, vai conhecimento, vão redes, vai uma maneira de pensar, vai uma abordagem aos problemas com um método mais científico. Isso é um catalisador de inovação também nas empresas».

O responsável destacou ainda que o laboratório colaborativo procura ser um empregador competitivo, com remunerações acima da média nacional para actividades de investigação e desenvolvimento, contribuindo igualmente para atrair e reter talento altamente qualificado. Também o modelo de financiamento está a evoluir. Embora o financiamento competitivo continue a representar a principal fonte de receita, André Matos destacou a estabilidade proporcionada pelo financiamento-base e o crescimento das prestações de serviços às empresas. «Isto é muito relevante porque aponta para uma diversificação e para uma auto-suficiência crescente da actividade do DTx».

Grande parte desse trabalho é orientada por um roteiro tecnológico desenvolvido em conjunto com as empresas parceiras. «Participamos em redes europeias que acompanham aquilo que são os desafios actuais e as tecnologias emergentes. Ao mesmo tempo, temos relações próximas e estratégicas com as empresas, o que nos permite perceber os seus desafios e co-construir um roadmap tecnológico de médio prazo». Na sua intervenção, André Matos identificou três prioridades: alargar a base de empresas associadas, aprofundar a colaboração com outras entidades do Sistema Científico e Tecnológico Nacional e criar novas instalações capazes de acompanhar a evolução da organização. «Para maximizarmos aquilo que é a nossa missão e o nosso impacto, é necessário um espaço físico adequado à nossa ambição e às nossas necessidades».

No evento, que contou com a presença de Fernando Alexandre, ministro da Educação, Ciência e Inovação, o CEO admitiu que o futuro da inovação em Portugal dependerá da capacidade para reforçar essa ligação entre investigação e empresas. «O DTx desempenha o seu papel através do talento, levando as competências que existem no meio científico para as necessidades das empresas. Estamos orientados para projectos de inovação e investigação aplicada com um sentido prático e real. Isto só faz sentido num ecossistema colaborativo. É essa a base da nossa actuação».

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