Durante três dias, o Porto e Matosinhos voltaram a receber uma das maiores conferências europeias dedicadas à gestão, liderança e inovação. Sob o mote Leading the Future Economy, a 19.ª edição do QSP Summit tinha como intenção discutir como continuar a crescer quando a tecnologia evolui mais depressa do que as próprias organizações. Mas, se havia uma expectativa de encontrar respostas definitivas para o impacto da inteligência artificial, rapidamente ficou claro que essa não seria a conversa dominante. A IA esteve presente praticamente em todos os palcos, mas raramente como protagonista isolada. Pelo contrário, foi tratada como uma peça de um desafio muito mais amplo, onde liderança, criatividade, comportamento humano, geopolítica e capacidade de decisão passaram a ocupar o centro da discussão.
Essa mudança de perspectiva começou logo na sessão de abertura, realizada no Palácio da Bolsa, no Porto. Conhecido por ter antecipado a crise financeira de 2008, Nouriel Roubini abriu o evento com uma leitura pouco tranquilizadora da economia internacional. Entre conflitos geopolíticos, fragmentação das cadeias de abastecimento e perda de competitividade europeia, o economista defendeu que o maior motor de crescimento das próximas décadas será precisamente a inteligência artificial. Não porque elimine todos os restantes problemas, mas porque representa uma transformação tecnológica com um impacto potencial superior ao de qualquer inovação anterior.
Ao mesmo tempo, deixou um aviso para a Europa. Enquanto Estados Unidos e China aceleram investimento, capacidade industrial e desenvolvimento tecnológico, o continente europeu continua a perder terreno numa corrida onde a inovação, o talento e a capacidade de atrair capital passam a determinar o crescimento económico. A discussão prosseguiu num painel com Pedro Reis, antigo ministro da Economia, e Jorge Portugal, director-geral da COTEC Portugal, onde a competitividade europeia voltou a surgir como preocupação central. Mais do que um problema exclusivamente tecnológico, falou-se de políticas públicas, investimento, confiança dos mercados e capacidade para criar condições que permitam às empresas inovar e escalar. Foi precisamente essa relação entre contexto económico e transformação organizacional que acabou por marcar todo o restante programa.
Se Roubini explicou porque mudou o mundo, Peter Zemsky procurou responder à pergunta seguinte: o que devem fazer as empresas perante essa mudança? O professor do INSEAD desmontou uma das ideias mais repetidas dos últimos dois anos: a de que adoptar inteligência artificial será, por si só, suficiente para criar vantagem competitiva. Segundo defendeu, a tecnologia só produz resultados quando integrada na estratégia da organização. O verdadeiro desafio passa por identificar os problemas certos, redesenhar processos, alterar modelos operacionais e desenvolver competências capazes de transformar algoritmos em valor efectivo para o negócio.
A mensagem não podia estar mais alinhada com aquilo que o próprio QSP Summit já tinha identificado antes do evento. Um estudo promovido pela organização junto de 290 profissionais portugueses mostrava que a inteligência artificial é actualmente a principal prioridade de investimento das empresas nacionais, mas revelava igualmente um desfasamento significativo entre a velocidade de adopção destas ferramentas e a capacidade das organizações para criarem políticas internas, desenvolverem competências e estabelecerem regras claras para a sua utilização.
Em declarações à businessIT, Rui Ribeiro, CEO do QSP Summit, considera que esse desfasamento explica a escolha do tema desta edição. «Cada vez mais percebemos que a grande preocupação das organizações já não é apenas acompanhar a mudança, mas conseguir geri-la da melhor forma e ter ferramentas para liderá-la. Foi precisamente essa necessidade que nos levou a escolher o tema ‘Leading the Future Economy’. Mais que discutir tendências, queremos ajudar empresas e profissionais a compreender de que forma podem assumir um papel activo».

Liderar pessoas continua a ser mais difícil do que implementar tecnologia
Se Peter Zemsky procurou desmontar alguns dos mitos em torno da inteligência artificial, Amy Edmondson mostrou que a tecnologia, por si só, não resolve um problema muito mais antigo: a forma como as pessoas trabalham em conjunto. A professora da Harvard Business School, reconhecida internacionalmente pelo trabalho desenvolvido na área da psychological safety, defendeu que as organizações mais resilientes são aquelas onde existe espaço para questionar decisões, experimentar novas abordagens e aprender com o erro.
Também Dan Ariely deslocou o debate para o comportamento humano. O especialista em economia comportamental procurou desmontar outra ideia instalada no mundo empresarial: a de que o desempenho depende sobretudo de incentivos financeiros. Recorrendo a vários exemplos da investigação que tem desenvolvido ao longo das últimas duas décadas, defendeu que factores como propósito, reconhecimento e significado continuam a produzir níveis de motivação muito mais sustentáveis do que recompensas exclusivamente monetárias.
A criatividade foi outro dos temas que atravessou o programa. Numa intervenção apresentada em formato vídeo, Islam ElDessouky, global vice president creative strategy & content da Coca-Cola, defendeu que a criatividade deixou de ser apenas uma competência das equipas de marketing para passar a constituir uma disciplina estratégica de negócio. Através de vários casos internacionais, mostrou como cultura, emoção e conhecimento profundo das comunidades continuam a ser determinantes para construir marcas relevantes, mesmo num momento claramente marcado pela inteligência artificial generativa. A dimensão tecnológica voltou ao centro da discussão com Ben Hammersley. O futurista analisou o impacto da IA generativa na gestão das organizações, defendendo que esta tecnologia não está apenas a alterar ferramentas de trabalho, mas também modelos de liderança, estruturas organizacionais e formas de colaboração.
As reflexões do Main Stage encontraram depois continuidade nos Worklabs e nas Special Sessions, onde o debate passou da estratégia para a aplicação prática. Liderança em ambientes de elevada incerteza, utilização responsável da inteligência artificial, gestão de talento, sustentabilidade, marketing, experiência do consumidor e transformação digital foram alguns dos temas discutidos por líderes empresariais e especialistas de diferentes sectores.
Em declarações à businessIT, Rui Ribeiro considera que esse é precisamente o maior desafio que hoje se coloca às empresas. «O verdadeiro desafio passa, sobretudo, pela capacidade de as organizações integrarem a inteligência artificial da forma mais estratégica e sustentável. Mais do que uma questão tecnológica, estamos perante uma questão de liderança e cultura organizacional. A IA exige novas competências, novas formas de trabalho, uma maior atenção à segurança, privacidade e ética, e também uma enorme capacidade de adaptação».
É também por isso que, em vez de procurar dar respostas fechadas sobre a inteligência artificial, o QSP Summit optou por cruzar perspectivas tão distintas como economia, estratégia, comportamento humano, criatividade e geopolítica. Para Rui Ribeiro, «os desafios actuais não podem ser analisados de uma só perspectiva» e compreender a forma como estas diferentes áreas se cruzam é hoje indispensável para responder aos desafios colocados às organizações.









