Há uma pergunta que muitas empresas ainda não conseguem responder: de que depende, afinal, a inteligência artificial que estão a integrar nos seus processos? A resposta parece simples, mas está longe de o ser. Segundo o estudo da IBM ‘The Calculus of AI Sovereignty (2026)’, apenas 9% das organizações conhecem verdadeiramente as dependências associadas aos seus sistemas de IA e mais de sete em cada dez admitem que mudar do principal fornecedor seria hoje uma tarefa difícil. Conclui o documento que, nesta altura em que a inteligência artificial começa efectivamente a assumir funções críticas nas organizações, esta falta de visibilidade está a transformar-se num problema estratégico. Mas vamos um pouco atrás. Durante anos, a discussão sobre soberania digital centrou-se nos dados. Onde estavam armazenados? Quem lhes podia aceder? Que legislação os protegia? A ascensão da inteligência artificial mudou completamente esse enquadramento. Hoje, proteger os dados continua a ser importante, mas já não chega. As organizações precisam também de perceber quem desenvolve os modelos que utilizam, onde são executados, quem controla a infra-estrutura que os suporta e até que ponto conseguem continuar a operar se essas condições mudarem. É aqui que a conversa muda de nível.
Para os especialistas ouvidos pela businessIT, a inteligência artificial deixou de ser apenas uma ferramenta de produtividade para se tornar uma camada crítica sobre a qual assentam decisões, processos de negócio e até serviços inteiros. E quando isso acontece, os especialistas não parecem ter grandes dúvidas de que a dependência tecnológica deixa de ser um tema exclusivamente técnico para passar a fazer parte da estratégia das empresas. «O verdadeiro desafio não é a globalização em si, mas a existência de dependências ocultas», afirma Gonçalo Costa Andrade, software director da IBM Portugal. «As organizações precisam de ter visibilidade sobre onde essas dependências existem para poderem manter o controlo, preservar a flexibilidade e evitar constrangimentos que possam limitar as suas opções futuras».
De resto, essa ideia atravessa praticamente todas as opiniões recolhidas para esta reportagem. A soberania da inteligência artificial deixou de significar apenas proteger a informação; inclui agora a capacidade de escolher fornecedores, mudar de tecnologia, auditar modelos, garantir continuidade operacional e manter liberdade de decisão quando o contexto muda. Para Ulrich Ahle, CEO da Gaia-X, esta evolução era inevitável. «A soberania dos dados diz respeito ao controlo sobre a camada dos dados», explica. «A soberania da IA vai mais longe. Não diz respeito apenas aos dados que alimentam os sistemas, mas também aos modelos, ao ambiente computacional, à camada de orquestração, ao processo de treino, à infra-estrutura de inferência e às dependências estratégicas que moldam a forma como a inteligência é produzida e aplicada».
Na prática, significa que uma empresa pode ter todos os seus dados armazenados em território europeu e, ainda assim, continuar dependente de fornecedores externos para quase tudo o que realmente faz funcionar a inteligência artificial. «O risco é proteger a matéria-prima, mas continuar dependente de terceiros para produzir a inteligência construída a partir dela», resume. Também Alexandre Cabral Godinho, investigador do INESC TEC, considera que esta mudança representa uma transformação profunda na forma como a soberania deve ser entendida. «O conceito de soberania dos dados assume um carácter essencialmente defensivo e territorial», explica. «A soberania de IA desloca o eixo de controlo para a capacidade de decisão». Ou seja, deixa de importar apenas onde a informação está guardada. Passa a ser igualmente importante perceber quem desenvolve os modelos, quem controla o poder computacional necessário para os executar e quem define as regras que orientam as decisões produzidas pelos algoritmos. «A soberania digital já não se limita à mera guarda de um cofre de dados», sustenta.









