O controlo começa muito antes de escolher um modelo
Se há uma ideia que atravessa todas as opiniões é que a soberania da IA não se conquista quando uma empresa assina um contrato com um fornecedor. Começa muito antes disso, na forma como a tecnologia é integrada nos sistemas, como os dados circulam dentro da organização e como é preparada uma eventual mudança de fornecedor. É precisamente aqui que muitas empresas continuam a falhar. Na experiência da Claranet Portugal, o erro mais frequente é começar pela ferramenta e só depois pensar na governação. «Continuamos a ver organizações que adoptam um serviço de IA generativa por iniciativa de uma equipa ou departamento, sem que a TI ou a Segurança tenham visibilidade sobre que dados estão a ser expostos à ferramenta», afirma Pedro Teixeira. O problema raramente fica por aí. A falta de regras de acesso, a ausência de planos de contingência e a dependência de um único fornecedor acabam por criar riscos que muitas organizações só descobrem quando já estão demasiado dependentes da tecnologia. «Outro erro recorrente é assumir que o serviço de IA vai estar sempre disponível e com as mesmas condições, sem plano de contingência se o fornecedor alterar preços, funcionalidades ou o próprio modelo subjacente», alerta.
É por isso que, na sua perspectiva, a pergunta que as empresas devem fazer mudou. «Já não é apenas ‘onde estão os dados?’, mas ‘o que acontece à operação se este serviço parar?’». A resposta passa por uma palavra que surge repetidamente ao longo desta reportagem: arquitectura. Antes de escolher um modelo, um fornecedor ou uma plataforma, importa perceber como será possível substituí-los no futuro. Quanto mais uma aplicação estiver construída à volta de uma única tecnologia, maior será o custo – financeiro, operacional e até estratégico – de uma eventual mudança. «Recomendamos sempre começar pela arquitectura, não pelo contrato», resume Pedro Teixeira. O objectivo é, enfatiza o responsável, manter os dados e a lógica de negócio sob controlo da organização, utilizar os serviços de IA como componentes intercambiáveis e testar regularmente se uma migração para outro fornecedor é realmente possível.
A preocupação com o chamado vendor lock-in também está presente na Microsoft. Pedro Soares considera legítimo que as empresas receiem ficar excessivamente dependentes de um único fornecedor e defende que essa dependência pode ser reduzida através de arquitecturas abertas, ambientes híbridos e soluções multi-cloud. «Ao disponibilizar múltiplos modelos, frameworks e opções de deployment, cria-se uma camada de abstracção que permite às organizações adaptar e evoluir as suas soluções ao longo do tempo», afirma. Mais do que escolher a tecnologia «certa», acrescenta, importa garantir que continua a existir liberdade para mudar de tecnologia quando isso fizer sentido.
A regulamentação veio acelerar uma mudança que já estava em curso
Durante muito tempo, muitas empresas encararam a governação da inteligência artificial como uma boa prática. Com a entrada em vigor do AI Act, essa abordagem deixa de ser suficiente, com a regulamentação europeia a não dizer apenas o que pode ou não pode ser feito, mas a obrigar as organizações a conhecer melhor os sistemas que utilizam, os dados que os alimentam e os riscos associados à sua utilização. Pedro Soares considera que essa mudança já se faz sentir. «O que estamos a observar não é uma desaceleração na inovação, mas sim uma evolução para arquitecturas mais robustas, onde compliance, segurança e governance são integradas desde o início, numa lógica de compliance by design».









