O objectivo não é fazer tudo na Europa
Apesar do destaque crescente que o conceito tem ganho nos últimos meses, há uma ideia que reúne consenso entre todas as entidades ouvidas pela businessIT. O facto de a soberania não ser sinónimo de isolamento. Num mercado em que os maiores modelos de inteligência artificial, os principais fornecedores de cloud e uma parte significativa da capacidade computacional continuam concentrados nos Estados Unidos e na China, defender uma autonomia absoluta seria pouco realista e Ulrich Ahle rejeita claramente essa ideia de forma clara. «A soberania não significa autarcia». Na sua perspectiva, o objectivo europeu não passa por duplicar todas as plataformas globais, mas por garantir capacidade suficiente para reduzir dependências excessivas e preservar a liberdade de escolha. «O que a Europa precisa é de um equilíbrio», afirma. «O verdadeiro objectivo não é duplicar todas as plataformas globais, mas garantir que a Europa pode escolher as suas dependências, em vez de as herdar».
Essa lógica aproxima-se daquilo que a IBM designa por “soberania selectiva”, ou seja, nem todos os sistemas têm o mesmo peso para uma organização e, por isso, também não exigem o mesmo grau de autonomia. «As organizações devem dar prioridade à soberania nos sistemas que influenciam directamente as receitas, a confiança dos clientes, a propriedade intelectual, a conformidade regulamentar ou as operações críticas para a missão da organização», explica Gonçalo Costa Andrade. Já para aplicações mais generalistas, recorrer a fornecedores externos pode continuar a ser a solução mais eficiente. «O objectivo não é alcançar uma independência total, mas manter o controlo onde este é mais importante, continuando simultaneamente a beneficiar da inovação, da escala e da experiência do ecossistema tecnológico global».
O investigador do INESC TEC utiliza uma expressão diferente para transmitir uma ideia semelhante: “soberania funcional”. Na sua leitura, a Europa dificilmente conseguirá eliminar todas as dependências externas, mas deve assegurar que os sectores considerados críticos conseguem continuar a funcionar mesmo perante uma interrupção das cadeias tecnológicas globais. «A Europa necessita de garantir que os seus sectores de missão crítica, como a defesa, a saúde e as infra-estruturas civis, mantêm a operacionalidade mesmo que o cordão umbilical com a nuvem global seja interrompido». Essa capacidade, acrescenta, passa por investir em quatro pilares fundamentais: infra-estrutura computacional, desenvolvimento de modelos próprios, software de código aberto e talento capaz de desenvolver, auditar e governar sistemas de inteligência artificial.
A Microsoft chega a conclusões semelhantes, embora a partir de uma perspectiva diferente. Pedro Soares, National Security Officer da Microsoft Portugal, considera que recorrer a plataformas globais não impede, por si só, a existência de soberania. «A discussão sobre soberania digital evoluiu claramente para além da simples localização dos dados», afirma. «Hoje, soberania significa capacidade real de controlo sobre dados, workloads e modelos, transparência sobre como os sistemas operam e conformidade com o enquadramento regulatório europeu, sem comprometer a inovação». Na sua perspectiva, o equilíbrio depende sobretudo da forma como as arquitecturas são desenhadas e da possibilidade de as organizações manterem liberdade para evoluir, integrar novas soluções ou mudar de fornecedor sempre que necessário. «Não existe um trade-off inevitável entre soberania e inovação. É possível, e necessário, garantir ambos em simultâneo».









