O corpo humano tem dezenas de milhares de sensores. Um robô actual, segundo o presidente do conselho de administração da Bosch, Stefan Hartung, ronda apenas os 2200. Foi com este contraste que o executivo subiu ao palco do Tempodrom para abrir a Bosch ConnectedWorld (BCW26), o evento global da empresa alemã que decorreu em Berlim, repartido entre aquele palco – dedicado à abertura e ao programa principal de keynotes – e a Arena Berlin, onde se concentraram a exposição e o networking.
Stefan Hartung comparou o momento actual a uma «terceira revolução» da humanidade, depois da fixação humana há dez mil anos e da revolução científica do Renascimento, alertando que o excesso de regulação pode custar à Europa o atraso na inteligência artificial. «Se regulamentarmos demasiado a IA, poderemos ter uma vida agradável, mas sem IA. E digo-vos que, se tivermos uma vida sem IA, não teremos uma vida agradável», resumiu.
Foi nesse enquadramento que justificou o investimento da Bosch em robótica. Tal como o ser humano aprende através do corpo e dos sentidos, e não apenas através da leitura, defendeu, as máquinas precisam de um equivalente físico – visão, audição, tacto – para evoluir além do puro processamento de dados. É aí, lembrou, voltando ao contraste dos sensores com que abriu a sessão, que a Bosch quer assumir o papel de fabricante. Foi também naquele palco que a Bosch formalizou a parceria com a Microsoft, com o CEO Satya Nadella a destacar projectos conjuntos como o «AI cockpit» e a «manufacturing co-intelligence».
Separar dois mundos: software e hardware
Coube ao CTO da Robert Bosch, Mathias Pillin, traduzir esta ambição em estratégia técnica. A ideia central, explicou, é separar definitivamente o software do hardware, algo que a indústria automóvel já resolveu através do S-CORE, um standard aberto de que a Bosch é um dos principais contribuidores e que funciona como camada de sistema operativo entre os dois mundos. Sobre essa base sobrepõe-se agora uma camada de funções de inteligência artificial, que a Bosch já testa fora da mobilidade, como por exemplo em electrodomésticos e climatização. Sublinhou ainda que escalar IA na indústria exige um patamar de fiabilidade muito acima do habitual. «Quando se quer escalar IA, não se pode ficar nos 80%, é preciso chegar aos 99%», disse. E defendeu que as mais de 200 fábricas e os triliões de dados que a Bosch acumula globalmente são a vantagem competitiva que torna isso possível.
Foi, porém, Tanja Rückert, membro do conselho de administração e directora digital (CDO) da Bosch, já num segundo momento dedicado à indústria, quem deu corpo humano a este discurso. Depois de revelar que a Bosch processa diariamente três mil milhões de sinais industriais, mais concretamente 60 mil por segundo, Tanja Rückert apresentou o caso de Carl, operário de manutenção há 27 anos numa fábrica do grupo, que passou de cepticismo perante a inteligência artificial a apoiar-se diariamente numa equipa de agentes de IA que o ajudam a diagnosticar avarias em segundos, cruzando dados de fábricas por todo o mundo onde nunca esteve. «Continua a tomar a decisão, continua a apertar a chave de fendas, mas agora tem apoio», resumiu Tanja Rückert, defendendo que o objectivo não é substituir a experiência humana, mas preservá-la antes que se perca com a reforma da geração mais experiente. «Não estamos a perder a geração mais experiente para a inteligência artificial. Estamos a perdê-la para a reforma».
O evento contou ainda com a participação do ministro federal alemão para a Transformação Digital e Modernização do Estado, Karsten Wildberger, que contrapôs à euforia tecnológica das keynotes anteriores um aviso sobre as condições que a tornam possível. Chamou a esse desfasamento entre tecnologia e sociedade o «mind gap», e apresentou como resposta o «Deutschland Stack», a infra-estrutura digital soberana sobre a qual a administração pública e empresas podem construir serviços. Sobre a exigência de testar e certificar sistemas de inteligência artificial antes de chegarem a áreas críticas como a saúde, recorreu a uma analogia que não soava nada por acaso perante uma audiência da indústria automóvel. «Ninguém confia num travão só porque alguém diz que funciona. Testa-se. Certifica-se. Entende-se a falha antes de ela acontecer. O mesmo tem de valer para a inteligência artificial avançada», disse Karsten Wildberger.
Portugal é caso de sucesso
«Feito em Portugal, inventado em Portugal e com talento português». Foi este o argumento que Javier González Pareja, presidente da Bosch em Portugal e Espanha, garante à businessIT usar para ‘vender’ os produtos e serviços desenvolvidos a partir do nosso país. Fazendo crer que, hoje, a marca Portugal, também neste sector, consegue ser uma porta de entrada em novos contratos, algo particularmente relevante se levarmos em conta que a maioria do negócio feito em território luso pela empresa germânica, nas unidades de Braga e Aveiro – já que Javier González Pareja não gosta de lhes chamar fábricas –, é para exportação. O cliente típico não é, por isso, português. «O cliente português é exigente e digital, compara muito as diferentes promoções», descreve Javier González Pareja, justificando a decisão da Bosch de, em negócios como o dos electrodomésticos, ir directamente ao consumidor final, resposta também à pressão de gigantes como a Amazon, que já vende também os instaladores certificados que as colocam em funcionamento.
Em Braga, mais de 500 trabalhadores produzem radares, câmaras e sistemas de display para a indústria automóvel. Em Aveiro, a aposta é a termotecnologia herdada da Vulcano, desde esquentadores, caldeiras e bombas de calor, estas últimas destinadas sobretudo ao norte da Europa. A expansão desta última unidade chegou a estar planeada para a Polónia, recorda Javier González Pareja, antes de a Bosch optar por Portugal. Prova, defende, de uma competitividade «igual ou superior» à de outros mercados europeus.
Reter talento é, admite Javier González Pareja, mais difícil do que contratá-lo. «A nova geração já não se contenta com um bom ordenado». A resposta da Bosch passa por gestão de carreira a longo prazo, uma rotatividade que assegura estar abaixo da média do mercado, e os «alumni», colaboradores que saem e mais tarde regressam. Sobre inteligência artificial, defende princípios éticos que excluem, por exemplo, o uso de dados de saúde em processos de selecção, e insiste que, em condução autónoma, decisões em cenários de acidente inevitável devem continuar a caber a uma pessoa. Até porque, recorda, a Convenção de Viena de 1968 exige um condutor ao volante, travando juridicamente o nível 5 ainda que a tecnologia já o permita.
A Bosch está em Portugal desde 1908 e emprega cerca de seis mil pessoas, com a fábrica de Braga, por si só, a facturar tanto quanto o grupo em toda a América Latina, do México ao Brasil. Beneficia também, ironiza Javier González Pareja, da instabilidade a leste. «Quando uns choram, outros vendem lenços».
O medo da mudança
Se para Javier González Pareja a confiança do consumidor é uma questão de maturidade de mercado, para Erika Rasch, vice-presidente executiva de People & Culture da Bosch, ela tem uma raiz mais profunda: o medo da mudança, transversal a qualquer ser humano, mas vivido de forma diferente entre culturas. Na China, onde viveu quatro anos, Erika Rasch observa um Estado que prepara activamente a população para a inteligência artificial e, no hemisfério ocidental, a discussão centra-se mais nos riscos. «As pessoas só avançam se virem um futuro positivo, caso contrário, ficam inseguras e ainda mais assustadas», resume Erika Rasch, recusando, no entanto, ligar essa insegurança apenas à idade dos colaboradores. É, antes, uma questão cultural e humana, transversal a uma empresa com 412 mil colaboradores em mais de 60 países.
Sobre retenção de talento, Erika Rasch concorda que já não basta um bom ordenado. Aponta antes os valores da Bosch e os seus princípios de liderança como o verdadeiro diferencial. «Com mais inteligência tecnológica, precisamos de ainda mais inteligência emocional», argumenta. A isso soma a diversidade interna de percursos possíveis – entre start-ups e áreas industrializadas – como razão pela qual, ao contrário de colegas de curso que mudaram de empresa várias vezes, continua na Bosch há anos, tendo trabalhado em diferentes funções, indústrias e países sem nunca ter saído. «Isto é o que as pessoas adoram nesta empresa: moldar algo que é, de facto, significativo», remata Erika Rasch.









