Reportagem

APDC: a soberania digital é essencial para a «segurança e competitividade» da Europa

O 35.º Digital Business Congress da APDC, que teve como tema a soberania digital, revelou que a união e a colaboração são essenciais para que a Europa atinja a independência tecnológica e seja mais inovadora.

Rogério Carapuça © APDC

No congresso da APDC – Associação Portuguesa para o Desenvolvimento das Comunicações, que se realizou no Lispolis, o presidente, Rogério Carapuça, sublinhou que a missão da associação passa por «conectar o mercado», «gerar consensos», «promover o talento e a inovação» e assumir uma «postura de ‘thought leaders’ (líderes de pensamento)», ajudando a definir o futuro do sector.

O responsável explicou que a reforma do Estado é uma «enorme oportunidade de modernização» que pode ajudar a tornar o «País mais produtivo», mas que só funciona se os incentivos mudarem. Assim, Rogério Carapuça referiu que devem existir «prazos rigorosos para os processos» e que, quando estes não são cumpridos, «o ónus desse incumprimento não deve recair sobre os cidadãos ou as empresas». Por outro lado, defendeu que os «funcionários públicos devem ter objectivos» que contribuam para «a avaliação de desempenho» e que «a progressão nas carreiras deve basear-se nesse processo, e não na idade ou antiguidade».

No que diz respeito ao sector privado, o presidente da APDC realçou que devem existir «incentivos, nomeadamente fiscais, para as empresas serem grandes», alertando que este é um «problema cultural» que «tem de mudar» para que o «País se desenvolva». E referiu ainda que devem existir também «incentivos para fusões e aquisições» para que as «empresas possam ganhar escala» e que as autoridades e reguladores devem pensar em «aspectos como o ganho de escala e de capacidade de investimento por oposição apenas aos preços», ou seja, optar por «regulação dinâmica em vez de estática».

Uma liderança forte
O Contra-Almirante António Gameiro Marques foi o presidente do congresso deste ano e, na sua keynote, fez uma analogia entre o desafio digital europeu e os Descobrimentos. O responsável destacou que a «epopeia» nacional só foi possível porque no século XV «existia visão estratégica»; «conhecimento científico, que permitiu desenvolver a capacidade de construir navios dotados da mais moderna tecnologia naval existente na altura»; «líderes com determinação» e «autonomia na obtenção dos elementos essenciais como as matérias-primas para a construção dos navios, para o fabrico das velas», etc.

O ex-director-geral do Gabinete Nacional de Segurança desafiou os presentes a aplicarem esse mesmo espírito explorador, fazendo o paralelismo entre o «oceano desconhecido» e «o ciberespaço, a inteligência artificial e a computação quântica». António Gameiro Marques disse que «os desafios da soberania digital são as novas tormentas» que só podem ser «dobradas com sucesso em cooperação» e colocou uma pergunta: «Tem a Europa soberania sobre o seu destino digital?».

A resposta dada pelo Contra-Almirante foi que não, já que está dependente de terceiros em relação a «infraestrutura, plataformas, algoritmos, semicondutores e serviços de cloud». O responsável alertou ainda que «a maioria dos dados produzidos na Europa é extraída e monetizada por plataformas não europeias» e que «esta dependência económica é um risco de segurança».

António Gameiro Marques disse ainda que «a soberania tecnológica não é um luxo, mas uma condição para a segurança e para a competitividade» europeia, mas que esta independência «não significa isolamento», mas sim «capacidade de fazer escolhas autonomamente, poder definir as regras do jogo e ser capaz de proteger os dados dos cidadãos e das empresas de acordo com os princípios e valores» europeus. Isto de forma a garantir que o continente «não é apenas um consumidor de tecnologia concebida e fabricada por outros, mas sim também produtor, inovador e exportador de valor».

União é fundamental
O responsável apontou o caminho para a soberania digital: «Precisamos, por isso, de passar de uma postura reactiva e por vezes defensiva para um realismo estratégico. O nosso maior obstáculo não é a falta de talento ou a falta de inovação, mas sim a dificuldade em ganhar escala num mercado bastante fragmentado».

O responsável defendeu que se deve apostar numa «unidade de direcção e de esforço na área do digital» e disse que «a Europa está finalmente a despertar, quanto mais não seja porque cada vez mais fica consciente de que tem de contar consigo para as questões essenciais, em vez de contar com outros». O militar na reforma referiu ainda que «o digital é essencial nas nossas vidas» e desafiou os países europeus e Portugal a realizarem «parcerias fortes» entre o Estado, a academia e a indústria «para transformar o conhecimento científico em bens e patentes tangíveis». António Gameiro Marques sublinhou que a Europa tem de «decidir se quer ser protagonista da sua história ou apenas passageira da história construída por outros».

Europa está atrasada
No painel ‘Frontier Technologies: The Race Europe cannot Lose’, Arlindo Oliveira (professor do IST e presidente do INESC) reconheceu que a Europa está atrasada «um ou dois anos» em termos de IA em relação à China e aos EUA e disse acreditar que «a computação quântica não vai desempenhar um papel relevante na competitividade europeia».

O responsável sublinhou que «grande parte do problema» deste atraso «é inerente à fragmentação do mercado, ao peso legislativo e regulatório e à ausência de capital para investimento». Por outro lado, disse ser «importante recuperar o atraso», pensando «como é que a IA pode trazer vantagem para a economia». Em Portugal, sugeriu um foco da inteligência artificial «em tornar as empresas mais competitivas», no «turismo» e «na modernização administrativa do Estado».

Nuno Lopes, country manager da FuriosaAI, referiu a «burocracia excessiva» como um grande obstáculo à competitividade, à atracção de investimento e à investigação e deu como exemplo o facto de a tecnológica de origem sul-coreana onde trabalha «ter demorado quase seis meses a abrir empresa» em Portugal. O responsável explicou que há uma diferença cultural na Europa relativamente ao risco, onde «quase não se pode ter sucesso», o que prejudica a inovação face às outras grandes economias globais.

Todos podem vencer
A fragmentação foi também um dos desafios referidos por Paulo Pereira, head de carrier business da Huawei Portugal, para o facto de a Europa estar atrasada. O responsável acrescentou que a tecnologia «é uma corrida em que para uns ganharem, os outros não têm de perder», ou seja, «podem todos ganhar» e disse que, em vez de tentar «manietar» os concorrentes com legislação, a Europa «devia tentar correr mais rápido».

O head de carrier business afirmou que a soberania europeia não significa ter de fabricar tudo localmente. A Europa pode continuar a «usar chips americanos e chineses», criando em cima destes uma «camada de valor onde controla esse ecossistema», diferenciando-se da concorrência e apostando em «I&D, no desenvolvimento de novas patentes e serviços». Paulo Pereira referiu que quando se fala «de uma tecnologia extremamente complexa e cuja cadeia de abastecimento é global», como é o caso do 5G, esta não é «made in China» ou «made in Europe», mas «made in the world». No final, concluiu que «segurança e soberania não são opostos da inovação» e que é preciso «trabalhar em conjunto para que a Europa seja um centro geoestratégico da inovação».

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