Há 30 anos, atravessar a Europa ao volante de um camião era um exercício particularmente diferente daquele que é hoje. As rotas eram preparadas com mapas em papel, as condições de trânsito eram difíceis de antecipar, os preços dos combustíveis nos diferentes países eram conhecidos de forma aproximada e grande parte dos registos associados à operação era feita manualmente. Hoje, a “história” conta-se através de veículos ligados, GPS, tacógrafos digitais, plataformas de gestão de frota e sistemas de telemática que permitem acompanhar a localização de um camião, perceber o estado da operação, controlar tempos de condução e descanso ou analisar consumos quase em tempo real.
A próxima etapa, acredita a Eurowag, passará por utilizar a Inteligência Artificial não apenas para recolher e analisar essa informação, mas também para antecipar custos, optimizar percursos ou apoiar decisões dos gestores de frota. Segundo dados avançados pela empresa, cerca de 294 milhões de veículos circulam nas estradas europeias, dos quais aproximadamente 38 milhões são carrinhas, camiões e autocarros. Ainda assim, a Eurowag estima que a adopção de soluções de telemática nas frotas europeias permaneça abaixo dos 30%.
O digital ainda não chegou a todos
A diferença é particularmente visível entre grandes operadores internacionais e transportadoras de menor dimensão. Tiago Areias, country manager da Eurowag, admite que «a principal barreira continua a ser a combinação entre custo inicial, complexidade de implementação e resistência cultural à mudança. Embora a tecnologia esteja hoje mais acessível do que há alguns anos, muitas PME do sector dos transportes operam com margens historicamente reduzidas e tendem a priorizar investimentos com retorno imediato». Há ainda, no seu entender, um problema de fragmentação tecnológica, já que «muitas empresas utilizam diferentes ferramentas que não comunicam entre si, o que reduz significativamente os ganhos de eficiência esperados da digitalização».
Nas organizações familiares ou de menor dimensão, acrescenta, a transformação implica também mudanças nos processos e na própria cultura empresarial, nem sempre fáceis de concretizar. Mas Tiago Areias acredita que a pressão crescente sobre os custos e a sustentabilidade acabará por acelerar a transição: «A digitalização deixa de ser um factor diferenciador para se tornar um requisito essencial para competir». Segundo o responsável, as transportadoras procuram cada vez mais soluções integradas que concentrem pagamentos, gestão de frota, telemática e controlo operacional.
A IA começa a ganhar espaço
Para Tiago Areias, no horizonte dos próximos três a cinco anos, o cenário é este: «A IA deixará de ser uma tecnologia incremental para se assumir como o motor central da eficiência e da competitividade do transporte rodoviário de mercadorias. Acreditamos que o maior impacto da IA estará na capacidade de transformar grandes volumes de dados operacionais em decisões automáticas e accionáveis». Entre as áreas onde antecipa maior impacto estão a previsão dos custos e das margens de cada transporte e a optimização dinâmica das rotas, tendo em consideração variáveis como trânsito, portagens e preços dos combustíveis. Também a manutenção dos veículos poderá beneficiar desta capacidade de análise e previsão.
Na perspectiva do responsável da Eurowag, a IA terá um papel crescente na manutenção e na gestão inteligente do consumo energético, uma questão que ganhará importância à medida que as frotas passem a incorporar combustíveis alternativos e veículos eléctricos. Para os motoristas, a tecnologia poderá assumir sobretudo uma função de apoio. «Através da análise de padrões de condução, será possível melhorar a segurança, reduzir consumos e antecipar situações de risco», considera Tiago Areias.
Segundo informação divulgada pela Eurowag, algumas ferramentas de coaching baseadas nos dados da condução podem contribuir para poupanças de combustível entre 10% e 20%. A empresa refere ainda que a IA permite calcular os custos estimados de determinada rota com uma precisão que pode chegar aos 98% quando comparados com os custos reais.
Menos tarefas repetitivas
Nem toda a transformação acontecerá na estrada. Documentação, conformidade, facturação, pagamentos ou verificação de informação continuam a consumir tempo às equipas das transportadoras e são precisamente algumas das tarefas onde Tiago Areias espera maior automatização. Na sua opinião, a IA poderá processar documentação, verificar conformidade legal e reduzir uma parte das tarefas repetitivas que actualmente ocupam as equipas operacionais. Isso não significa, ressalva, substituir trabalhadores por algoritmos. «O grande valor da IA não será substituir as pessoas, mas permitir que gestores de frota e operadores tomem decisões mais rápidas, mais informadas e com maior previsibilidade».
A transformação dos tacógrafos mostra, entretanto, como a tecnologia já alterou processos de controlo que durante décadas permaneceram praticamente inalterados. Antes de 2006, os tempos de condução eram registados através de discos em papel. Hoje, os tacógrafos digitais permitem um controlo mais rigoroso dos períodos de condução e descanso dos motoristas. A capacidade de monitorização vai agora bastante além dos tempos de trabalho. Um veículo pode gerar continuamente informação sobre localização, velocidade, consumo, desempenho ou utilização dos diferentes sistemas. E a multiplicação destes dados, admite o especialista, traz também novos problemas.
Quanto mais dados, maior o desafio
Para Tiago Areias, o aumento da informação produzida pelas frotas proporciona maior visibilidade sobre a operação, mas coloca simultaneamente questões de segurança, privacidade e conformidade legal. «O sector está cada vez mais consciente de que os dados se tornaram um dos seus activos mais valiosos. As empresas estão a investir em plataformas mais seguras, políticas de protecção de dados e processos de controlo de acessos, procurando garantir conformidade com os requisitos europeus de privacidade e cibersegurança».
Persistem, contudo, dificuldades. Uma delas volta a estar relacionada com a quantidade de sistemas e fornecedores tecnológicos utilizados por uma mesma transportadora, que, segundo o responsável, aumenta a complexidade da gestão e pode criar vulnerabilidades. Há ainda outra questão: recolher dados não significa necessariamente saber utilizá-los. «Não basta recolher informação, é necessário conseguir interpretá-la de forma eficiente e utilizá-la para melhorar a operação», sublinha Tiago Areias. No seu entender, será por isso necessário apostar em sistemas capazes de reunir e analisar informação proveniente de diferentes áreas da empresa, em vez de continuar a multiplicar aplicações independentes.
A visão da Eurowag para a próxima década é a de um sector muito mais digitalizado, conectado e orientado por dados. Tiago Areias antecipa que muitas das tarefas administrativas hoje executadas manualmente poderão passar para plataformas inteligentes. Mas, mesmo num cenário de automatização crescente, o executivo não antecipa o desaparecimento do factor humano. «O transporte rodoviário é uma actividade complexa, onde a experiência, a capacidade de adaptação e a tomada de decisão em contexto real continuarão a ser fundamentais».









