Em Foco

Inovação (no feminino) redesenha saúde e sustentabilidade

De diagnósticos ultrarrápidos para infeções respiratórias a passaportes digitais blockchain para cadeias globais e adesivos médicos que previnem lesões cutâneas, três empreendedoras ligadas a Portugal, Neide Vieira, Ella Frances Cullen e Sónia Ferreira, mostram como a tenacidade lusa está a redesenhar saúde e sustentabilidade à escala europeia.

© Freepik

A odisseia da Minespider
Num sector onde as cadeias de valor das matérias-primas, particularmente na mineração, foram durante décadas sinónimo de opacidade, Ella Frances Cullen, cofundadora e chief marketing officer da Minespider, identifica na tecnologia o catalisador para uma revolução profunda. No seu entender, o cerne da actividade da empresa reside nos Digital Product Passports, que capturam e estruturam dados em cada etapa da cadeia de abastecimento, transformando radicalmente o nível de visibilidade em todo o sistema. Como referiu, os intervenientes antes ocultos por papelada fragmentada ou bases de dados isoladas passam a fazer parte de um fluxo contínuo de informação rastreável e verificável. «No fundo, o que fazemos com os Passaportes Digitais de Produto é capturar e estruturar dados em cada etapa da cadeia de abastecimento, o que muda realmente o nível de visibilidade em todo o sistema».

Ella Frances Cullen reconhece que a mineração, apesar da imagem de sector opaco, conta com muitas empresas que desenvolvem trabalho sólido em padrões ambientais, envolvimento comunitário, saúde, segurança e governação. Nas suas palavras, a dificuldade não está na falta de esforço, mas na incapacidade de o provar de forma credível e estruturada. «A mineração tem sido tradicionalmente vista como opaca, mas muitas empresas estão a fazer um trabalho genuinamente forte em matéria de padrões ambientais, envolvimento comunitário, saúde e segurança e governação. A dificuldade é muitas vezes não fazerem o esforço, mas sim prová-lo de forma credível e estruturada». As empresas com quem a Minespider colabora querem diferenciar-se, «querem mostrar a origem de forma clara, demonstrar conformidade com os requisitos de due diligence e tornar os seus esforços de sustentabilidade visíveis em vez de presumidos».

No entender de Ella Frances Cullen, há também vantagens operacionais muitas vezes subestimadas. Quando as empresas digitalizam e organizam adequadamente a informação da sua cadeia de abastecimento, «ganham uma melhor percepção de como os materiais se movem dentro da sua organização e para além dela. Isso pode melhorar a eficiência, apoiar o acesso a mercados regulados e fortalecer a confiança com clientes e investidores». Acredita que, a longo prazo, isto pode até suportar um posicionamento premium para materiais de origem responsável. Mais amplamente, diz, avizinha-se um futuro em que todos os produtos serão expectáveis carregar informação sobre a sua origem e modo de fabrico. Não só minerais, mas eventualmente a maioria dos produtos. Aqueles que não fornecerem dados transparentes sobre origem e processamento, garante a especialista, arriscam ser tratados quase como mercado negro, pois sem informação verificável não há forma de avaliar as reivindicações. «A transparência está rapidamente a tornar-se uma expectativa base, em vez de um diferenciador».

A pressão regulatória europeia em torno de ESG e due diligence é, para Ella Frances Cullen, simultaneamente um motor de inovação e um custo adicional, uma complexidade que importa reconhecer abertamente. Como referiu, a regulação impulsiona claramente a inovação. «Uma parte significativa da procura pela nossa tecnologia vem de empresas a responder a novos requisitos ESG e de due diligence». Ao mesmo tempo, a Europa é por vezes criticada por sobre-regulação, mas Ella Frances Cullen não concorda inteiramente com essa caracterização. Em muitos casos, a regulação europeia proporciona clareza e frameworks como o AI Act ou o MiCA definem expectativas claras, dando às empresas uma noção mais precisa dos limites dentro dos quais podem inovar. «Essa certeza legal pode ser uma vantagem, porque as empresas podem construir com mais confiança em vez de se preocuparem com execuções imprevisíveis mais tarde».

Deixe um comentário