Mas como se constrói uma deep-tech assim num sector onde a ciência colide com a urgência clínica? No entender de Neide Vieira, tudo passa por um roadmap claro, faseado e orientado por risco, onde tecnologia, evidência clínica e estratégia regulatória avançam em paralelo, convergindo em momentos de inflexão definidos. Desde o início, explica a COO, o trabalho divide-se em três linhas interligadas: maturação tecnológica dos sensores, cartucho e leitor; validação clínica progressiva, de pré-clínica a estudos comparativos; industrialização e preparação regulatória, incluindo sistema de gestão da qualidade e requisitos de usabilidade. Cada fase sustenta-se em critérios objectivos – desempenho analítico, repetibilidade, workflow –, gerando dados reutilizáveis. Algo que, no seu entender, acelera o processo sem sacrificar o rigor.
O motor humano é crucial. Neide Vieira descreve uma equipa de cofundadores e técnicos multidisciplinares, com papéis distribuídos entre ciência, engenharia e negócio, apoiada por conselheiros que mitigam riscos. A formação académica confere, no seu entender, tenacidade para iterações, com prioridades revistas via feedback clínico. O foco, diz, permanece num diagnóstico in vitro pronto para adopção massiva. O financiamento é o maior obstáculo, reconhece, «sobretudo quando o caminho até ao mercado implica desenvolver hardware, consumíveis e software, gerar evidência clínica e mitigar risco tecnológico e regulamentar». No caso da Iplexmed, «estruturamos o crescimento combinando, desde cedo, financiamento competitivo com investimento privado, de forma a garantir continuidade de desenvolvimento e capacidade real de execução e, ao mesmo tempo, ir reduzindo risco com dados e validação».
Os apoios não dilutivos foram adjectivados de «essenciais» pela COO, sobretudo para acelerar etapas críticas do desenvolvimento e para reduzir risco. «Não só pela capitalização, mas também pelo acesso a redes e acompanhamento». Em particular, a especialista focou o Empowomen, que teve um impacto muito concreto: «permitiu-nos ganhar tracção, reforçar a estratégia de internacionalização e de propriedade intelectual, consolidar parcerias e acelerar a resolução de desafios técnicos e operacionais com mentoria e rede europeia». Em paralelo, reforçou a ronda pre-seed que deu capacidade de execução e foco ao projecto, «reforçando equipa e acelerando decisões estruturantes. Em conjunto, estes instrumentos colocaram-nos numa posição mais sólida para a fase seguinte, maturar mais ainda a tecnologia, completar testes de performance, reforçar recursos humanos e avançar no caminho regulatório, preparando de forma estruturada a entrada no mercado».
A ambição a cinco anos? Levar a plataforma Nexaguard ao mercado e afirmar a Iplexmed como uma referência europeia em diagnóstico descentralizado, com impacto real na gestão de infecções. «Fazemos isto com uma visão muito clara de conceito de plataforma: a Nexaguard foi desenhada para ser modular e escalável, permitindo adaptar o mesmo sistema (leitor, analítica) a outros cartuchos que detectem diferentes condições clínicas, como doenças sexualmente transmissíveis, sépsis, infecções nosocomiais e painéis de diagnóstico personalizados à medida que expandimos o menu de testes».









