Entrevista

«Esta é ‘apenas’ mais uma crise, estou muito optimista»

Entrevista a Rui Fonseca, CEO e fundador da Altronix.

Produz rótulos mas também desenvolve software. A Altronix, no mercado há dezoito anos e ganhou recentemente o troféu ‘Transformação Digital’ na 4.ª edição dos prémios Heróis PME, com a sua plataforma Nicole. Rui Fonseca, CEO e fundador desta empresa do Vale do Ave, falou-nos sobre a internacionalização do negócio e o impacto que a pandemia teve na empresa. E, mesmo assim,mostra-se optimista quanto ao futuro. «Esta é ‘apenas’ mais uma crise», disse.

Como gosta de apresentar a sua empresa?

A Altronix é uma empresa que está no mercado há dezoito anos – não só em Portugal mas igualmente em Espanha e noutras geografias – e assenta em dois pilares de negócio. O primeiro consiste na compra de rolos jumbo de papel que transformamos em etiquetas e rótulos. É impossível ir a qualquer linear de uma grande superfície e não ter à venda rótulos produzidos pela nossa empresa. O outro, que nos dá imenso prazer, é mais tecnológico, de função, com desenvolvimento interno de software e hardware que vai ao encontro das necessidades dos nossos clientes, em termos optimização de linhas de produção, de logística, de gestão de armazém…

O que nasceu primeiro? A parte da transformação do papel ou a tecnológica?

Quando a empresa nasceu, não desenvolvíamos nem fabricávamos produtos, apenas comercializávamos. Nascemos num pequeno escritório que tinha um fax, uma secretária e pouco mais. Não tínhamos dinheiro e clientes. Fomos à luta e, com o passar dos anos, ganhámos quota de mercado, começando a fazer sentido passarmos a indústria. Nessa mesma altura, demos os nossos primeiros passos no desenvolvimento interno de soluções. Começámos pela parte de desenvolvimento de software, para os nossos clientes, contratando os primeiros ‘developers’. Depois, houve a necessidade ao nível do hardware, o que implicou algumas alterações, pois já envolvia serralharia, pneumática, electrónica… começámos, então, a deixar de comercializar para fabricar as nossas próprias soluções.

Desde a criação da empresa, quando comercializavam apenas produtos de terceiros, até terem produto próprio, mais ou menos quantos anos passaram?

Diria que foram uns oito ou nove anos a agregar conhecimento.

Hoje, quantas pessoas trabalham na Altronix?

Entre Porto, Lisboa e Espanha, somos cerca de 62.

Capital 100% nacional?

Sim, a totalidade do capital é português.

Como nasceu a ida para Espanha?

Começámos a exportar as nossas soluções há muitos anos, diria quase nos primeiros anos, mesmo quando apenas comercializávamos soluções de terceiros, a começar pelos PALOP. Ao longo dos anos, o processo de exportação foi ficando mais maduro, temos software espalhado por cerca de quarenta países. A minha visão é a de que vivemos num mundo global, não há fronteiras; há muitos anos que não vejo Portugal e Espanha como países separados, vejo um mercado ibérico. Ir a um cliente de Lisboa ou de Madrid a partir do Porto, não é diferente.

A determinado momento, percebi que a Altronix era ibérica, já tínhamos muitos clientes por toda a Espanha e fazia todo o sentido estar directamente no terreno, com instalações e pessoas nativas.

Qual é o balanço?

Confesso que não tem corrido muito bem. Em termos de COVID-19, Espanha teve um impacto muito superior a Portugal e os últimos três anos têm sido terríveis. Mas continuo a ter o mesmo pensamento e a esperança de que vamos conseguir alavancar o nosso mercado naquele país e facturar cada vez mais.

Em Espanha têm algum desenvolvimento ou a actividade é mais focada na vertente comercial?

Só comercial, com recursos locais.

Além de Espanha, há mais algum país interessante?

A pandemia afectou bastante a nossa vertente de exportações. Neste momento, cerca de 19% do nosso volume de negócios é feito fora, quando antes estava a crescer e já na casa dos 25%. Estávamos a ganhar quota de mercado todos os anos, mas fomos muito afectados e obrigou-nos, até, a fazer alguma reestruturação. De qualquer forma, a nossa estratégia mantém-se, tal como em 2019. Tivemos um tropeção chamado COVID, mas queremos continuar a fazer o nosso trabalho e ir buscar quota de mercado.

Recentemente, a vossa plataforma Nicole venceu o troféu ‘Transformação Digital’ na 4.ª edição dos prémios Heróis PME. O que é que esta plataforma vem trazer ao mercado?

Primeiro, deixe-me explicar que a Nicole é, na minha opinião, o melhor produto que alguma vez desenvolvemos, mas que não vendemos. Ou seja, é um produto desenvolvido para consumo interno. A plataforma nasceu há nove anos, fruto do nosso crescimento. Na altura, fui ao mercado perceber que software existia para nos ajudar nas nossas operações e identifiquei uma lacuna.

Não havia um software suficientemente interessante e robusto que conseguisse agregar as várias operações de uma empresa, desde ERP, CRM, a gestão de produção e logística. Nesse sentido, e como já estávamos a contratar programadores para as nossas soluções de software e tínhamos ferramentas internas, decidi que não iríamos comprar um produto, porque não comunica com os nossos, mas antes desenvolver uma plataforma que fizesse toda a gestão da operação da Altronix. A plataforma tem já, por isso, oito anos de trabalho e está muito madura.

É usada em toda a empresa?

Todas as delegações Altronix e operações da empresa assentam neste software. Costumo dizer que, nesta empresa, utiliza-se a Nicole e o Outlook, absolutamente mais nada. Aí começou – apesar de, na altura, não lhe ter chamado isso – o nosso processo de transformação digital, eliminando o papel, uma tarefa cumprida a 95%. [Text Wrapping Break]Acredito que o software tem um impacto enorme na vida profissional e até pessoal das pessoas, no seu bem-estar e felicidade. A Nicole, incluída no que é a transformação digital da Altronix, foi desenvolvida para dar esse bem-estar às pessoas, a serem melhores, mais eficientes e competentes. Na Nicole, trabalhamos muito – com alguma inteligência artificial e machine learning – a questão de as pessoas não errarem. Ou seja, o software, nas operações do dia-a-dia, está pensado para que as pessoas não possam errar; o software não deixa e isso tem um impacto enorme na motivação dos recursos, na gestão de conflitos.

Porque nunca pensaram em comercializar? Não querem dar trunfos à concorrência?

Acredito que as empresas devem ter um propósito. Acredito que o dinheiro e os resultados de uma empresa são a consequência desse mesmo propósito. E a Nicole não se encaixa no que é o nosso propósito. Somos verdadeiramente especialistas e bons na produção de etiquetas e rótulos e na comercialização de soluções para a indústria. Não quero desvirtuar esse propósito que está muito vincado na Altronix e nas suas pessoas, colocando um produto à venda para facturar mais qualquer coisa. Um produto novo, que as pessoas não estão habituadas a comercializar, no qual não somos especialistas porque não somos uma software-house… não fazia sentido.

Porque se chama Nicole?

Não é nada de pessoal, foi uma história engraçada. Há oito ou nove anos, quando começámos a trabalhar com a Nicole, chamávamos-lhe só ‘sistema’. Ou seja, toda a gente dizia: «Coloca a encomenda no sistema…». Na altura, havia um presidente do Sporting que falava muito no sistema, que tinha que ver com o FC Porto e estava-me a fazer confusão. Colocámos o pedido de sugestão a todos os nossos colaboradores e houve várias sugestões. Três foram a votos e a Nicole ganhou. Não é uma antiga namorada minha!

Como vê os próximos tempos?

Com muito optimismo. Deixe-me dizer que a nossa estratégia macro não vai mudar, não temos de o fazer, quando percepcionamos que é uma aposta vencedora. No que temos estado a trabalhar – e vai continuar a acontecer – é na alteração de estratégias micro. Isso tem de ser feito perante o que é o mercado e o estado da economia. Nós, portugueses, somos das pessoas mais fabulosas do mundo, porque temos vindo a fazer um trabalho fabuloso baseado em crises, com pessoas fantásticas, desde empresários a trabalhadores. Coitados é dos outros, que não estão habituados. Os portugueses, estão. Deixei a escola aos treze anos, comecei a minha vida profissional nessa altura, com a crise do sector têxtil a assombrar a zona onde estamos, o Vale do Ave, deixando desempregadas milhares de pessoas. Centenas de empresas fecharam. Já passei por várias crises. Costumo «aceita que dói menos». Esta é ‘apenas’ mais uma crise e estou muito optimista. A estratégia é boa e os resultados, em termos de métricas, demonstram isso. Vamos continuar com o mesmo optimismo, sabendo que as crises são cíclicas.

Vamos sair mais reforçados?

Estamos em crise desde o legado COVID, temos a inflacção, os canais de distribuição estão com imensos problemas derivado à falta de matéria-prima e a Altronix cresceu 14%, em Abril. Nesta altura, é muito bom. Só temos é de estar optimistas, acreditamos que vai correr muito bem. Saliento, e reitero: coitados é dos outros, que não estão habituados.

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