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O mundo depois da COVID-19: menos globalização, mais tecnologia

Uma vez derrotado o SARS-CoV-19, o novo normal será marcado por um crescimento muito mais lento e pelo risco de deflação, dizem os analistas. Vai haver menos globalização, mas claramente mais tecnologia.

A década de 1920 só foi devidamente apreciada após a passagem da deprimente década de 1930. Da mesma forma, os analistas defendem que após a grave recessão global que muito provavelmente o coronavírus nos vai fazer passar, os anos 2010 vão parecer uma Era de Ouro de crescimento económico, lento mas constante, com aumento do emprego e inflação e taxas de juros em declínio. O que podemos esperar quando as coisas voltarem ao normal?

A Bloomberg, por exemplo, dá vários cenários. Um deles é que a mudança do comércio livre externo e da globalização para o proteccionismo, iniciado quando a China entrou na Organização Mundial do Comércio em 2001, irá acelerar. O declínio na actividade produtiva e os empregos a ela relacionados no Ocidente, resultantes da globalização e da vulnerabilidade das cadeias de abastecimento mundiais, irão promover a auto-suficiência, mas também as ineficiências que lhe estão associadas. A esperança dos políticos de que o proteccionismo promove empregos e receitas domésticas sairá frustrada, pois, como na década de 1930, as barreiras comerciais reduzem o crescimento económico e geram deflação ou seja, uma diminuição do índice de preços no consumidor.

Outra conjectura é que as paralisações nos negócios e na educação devido ao vírus revelam o desperdício de grande parte das viagens de negócios e do tempo em sala de aula. Segundo a Bloomberg, as interacções cara a cara não irão desaparecer, mas serão reduzidas, em benefício do hardware e software de comunicação e em detrimento das companhias aéreas e dos hotéis. Trabalhar em casa irá tornar-se ainda mais aceitável.

Isabel Baganha, especialista em recursos humanos, diz que este cenário é bastante provável de acontecer no nosso país. «Acredito que o mundo de trabalho se vá transformar após serem levantadas as restrições que actualmente estamos a enfrentar. Não digo que se vá reinventar, mas antes se ajustar. O tecido empresarial português é constituído, na sua maioria, por empresas de pequena dimensão, organizações nas quais os empregados não têm apenas uma tarefa, mas várias. Mas acredito que hoje os responsáveis, nomeadamente das PME, vejam o teletrabalho de uma forma bastante diferente de há um mês. As pessoas reorganizaram-se e continuam a produzir sem estarem nas instalações da empresa. Essa perda de controlo que muitos responsáveis sentiram no início creio estar a desaparecer. Pelo menos, na maioria dos casos».

Já no caso da telescola, Daniel Marinho, psicólogo, diz que vê a opção a enquadrar-se perfeitamente no caso de alunos adultos, nomeadamente em pós-graduações. «Usar a telescola em crianças ou adolescentes podia um caminho complicado, é nesta fase que eles desenvolvem a interacção com os outros e o efeito proximidade e fundamental. Diminuir o tempo de ensino presencial nestas idades? Levaria a uma profunda reorganização da escola e das famílias. Mas se estivermos a falar das faculdades ou pós graduações pode ser uma excelente forma de democratizar o acesso ao conhecimento».

Com todo este clima de suspeição económica não é difícil prever que os consumidores actuem com cautela após a crise do coronavírus, de resto o que já aconteceu após a crise financeira de 2008. As compras, diz a Bloomberg, vão ser mais ponderadas, pesando nas vendas no retalho.

Entre outras projecções, a Bloomberg estima que quando os investidores finalmente perceberem a profundidade e a duração da recessão, as acções irão recuperar, mas provavelmente para níveis 20 a 30% inferiores às actuais. Como após o mercado em baixa de 2007-2009, os investidores individuais demoram a retornar, explica a Bloomberg.

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