Há momentos em que até a tecnologia tem sentido de oportunidade. No primeiro dia do Vodafone Paredes de Coura, enquanto Salvador Sobral e os First Breath After Coma actuavam, a Lua começou a tapar o Sol. Não um bocadinho, mas 99%. E, perante a perspectiva de parte do público estar a olhar para o palco enquanto outra parte tentava perceber o que se passava no céu, alguém teve uma ideia bastante menos sofisticada que aquilo que normalmente associamos à inovação: usar a fibra que já estava instalada e mostrar o eclipse nos ecrãs laterais do palco. Funcionou, conta Leonor Marques, directora de marca da Vodafone Portugal. O resultado foi uma coincidência difícil de programar: Salvador Sobral cantava enquanto o recinto mergulhava na sombra e o eclipse aparecia nos ecrãs. «Foi um momento totalmente mágico», recorda. A businessIT, presente no recinto, testemunhou os efusivos aplausos quando o público percebeu o que estava a acontecer.
Talvez esta seja uma boa metáfora para a tecnologia no Vodafone Paredes de Coura 2026: está em todo o lado, mas não foi para isso que as pessoas compraram bilhete. Entre 12 e 15 de Agosto, Paredes de Coura voltou a receber um festival que já soma 32 edições e que construiu parte da sua identidade precisamente em torno de uma ideia pouco tecnológica: desaparecer durante alguns dias para um anfiteatro natural no Minho, ouvir música, encontrar amigos e sentar-se junto ao rio. Este ano, o cartaz levou ao recinto nomes como Benjamin Clementine ou Hermanos Gutiérrez, mas também os portugueses Sérgio Godinho e A Garota Não.
O barómetro da emoção mede-se em terabytes
Desaparecer do mapa já não significa propriamente desaparecer da rede. Leonor Marques chama-lhe o «barómetro da emoção». A expressão não consta, pelo menos por enquanto, das métricas tradicionais das telecomunicações, mas a lógica é simples: quando alguma coisa nos entusiasma, tiramos o telemóvel do bolso. Fotografamos, filmamos, enviamos uma mensagem, publicamos uma story ou fazemos uma videochamada para mostrar a alguém que ficou em casa aquilo que está a perder. «Quando vemos uma coisa boa e queremos partilhá-la, é sinal de que agarrámos numa tecnologia e fizemos alguma coisa com ela. Perpetuámos uma memória no nosso telemóvel quando fizemos um vídeo ou partilhámos com alguém que ficou longe», explicou a responsável em conferência de imprensa no último dia do festival.
E, se o consumo de dados servir efectivamente de termómetro, Coura teve febre. Nos primeiros três dias do festival, o tráfego móvel na rede Vodafone aumentou mais de 28% em comparação com o período equivalente de 2025. Quase metade desse tráfego, 49%, já passou pela rede 5G. Há outro número interessante para perceber como mudou o público: 25% dos utilizadores ligados à rede Vodafone eram roamers, uma subida superior a cinco pontos percentuais face ao ano anterior. Ou seja, um em cada quatro equipamentos estava associado a alguém que chegou a Portugal com uma operadora estrangeira. E o consumo não parou de subir. Segundo os dados apresentados pela operadora durante o festival, cada dia estava a superar o anterior – num destes, a rede registou 4,8 TB de dados. O pico coincidiu com Benjamin Clementine – enquanto o músico punha a plateia a cantar à capela, milhares de smartphones faziam precisamente o contrário de ficar em silêncio.
«Batemos todos os picos de tráfego», conta Leonor Marques, que não esconde uma preferência pessoal pelo concerto. Para a directora de marca, é precisamente aí que tecnologia e emoção se encontram: não na velocidade que aparece no ecrã do telefone, mas na capacidade de a rede desaparecer da equação. «A conectividade veio para ficar. Já não é um acto técnico; faz parte de uma experiência que é cultural, mais do que uma experiência de música».
A melhor rede é aquela de que «ninguém se lembra»
Há uma pequena ironia em patrocinar um festival através de uma marca de telecomunicações. Se tudo correr bem, ninguém fala da rede. Uma chamada que cai, um vídeo que não carrega ou uma fotografia que fica eternamente presa nos 87% são imediatamente atribuídos à operadora. Uma ligação que funciona é apenas… uma ligação que funciona. É esse anonimato que a Vodafone quer, admite Leonor Marques. «Daqui a um ano, ninguém vai falar do tráfego, ninguém vai falar da velocidade», diz. Vai recordar «aquela conversa com um amigo junto ao rio» ou «o concerto brilhante a que assistiu e que mexeu consigo».
A ambição pode resumir-se numa frase: «Queremos que a conectividade seja invisível, para que a experiência seja visível». Num festival, isso implica dimensionar uma rede para um comportamento muito diferente do quotidiano. Durante algumas horas, milhares de pessoas concentram-se numa área reduzida e decidem simultaneamente filmar o mesmo refrão, enviar a mesma fotografia ou publicar o mesmo momento. A capacidade deixa, por isso, de ser apenas uma questão de cobertura. A experiência de Coura encaixa numa tendência que a Vodafone já tinha observado este Verão noutro festival. No Primavera Sound Porto, realizado em Junho, o tráfego móvel aumentou 39% face a 2025 e o 5G representou 44% do consumo total. Em Paredes de Coura, dois meses depois, a fasquia do 5G já estava nos 49%. O festival torna-se assim uma espécie de laboratório involuntário para perceber como os utilizadores usam a rede móvel: mais vídeo, mais conteúdos em tempo real e uma adopção crescente do 5G.
Tecnologia além do Wi-Fi
Mas a presença tecnológica da Vodafone em Coura não se esgotou na rede. Este ano, a empresa voltou a desafiar estudantes universitários a imaginar soluções para melhorar os festivais através da segunda edição do Challenge Vodafone Paredes de Coura. Com o tema ‘Technology for Good’, equipas de quatro estudantes foram convidadas a desenvolver propostas tecnológicas com potencial de aplicação real no evento. A lógica é interessante porque inverte a pergunta habitual. Em vez de «que tecnologia podemos levar para um festival?», o desafio passa a ser «que problema do festival vale a pena resolver com tecnologia?». A presença da marca também passou por assuntos em que a tecnologia praticamente sai de cena: este ano, a Vodafone estreou o ‘V. Cast – Um Género de Conversa’ e levou três podcasts ao vivo para o palco Jazz na Relva, entre 13 e 15 de Agosto, para discutir misoginia, igualdade de género e inclusão. «As pessoas vêm para aqui para descansar, mas também não deixam de pensar e de reflectir», afirma Leonor Marques.
É também aqui que a responsável coloca a relação da Vodafone com um festival ao qual está associada há mais de uma década. Essa relação não se mede apenas pela visibilidade da marca ou pelos indicadores de rede, mas também pela tentativa de acompanhar a identidade de um evento que cresceu sem se transformar completamente noutra coisa. João Carvalho, director da Ritmos e responsável máximo pelo festival, mede o sucesso de outra forma. Há os grandes concertos, naturalmente, mas também «os abraços, a cumplicidade, a simpatia e o bem-estar». Para o responsável, esta terá sido «uma das melhores edições de sempre», precisamente pela comunidade que se criou durante aqueles dias.









