Mais de 40% da iluminação pública é desperdiçada todas as noites, um desperdício que custa cerca de 10 milhões de euros por ano só em Lisboa e no Porto. Foi com este diagnóstico que Vasco Pires e Liliana Silva, estudantes do Instituto Superior Técnico (IST), subiram a um palco em São Francisco, nos Estados Unidos da América, e conquistaram um lugar entre as dez melhores ideias do mundo na final mundial do Red Bull Basement 2026.
A edição deste ano da competição, uma incubadora global de inovação e empreendedorismo dedicada a jovens fundadores e estudantes, registou o maior número de candidaturas da sua história: mais de 138 mil, provenientes de 42 países. Desse universo restaram dez finalistas, entre os quais a única equipa portuguesa, com o projecto Lumination, um módulo que transforma candeeiros já existentes em sistemas inteligentes, capazes de ajustar a intensidade da luz em tempo real consoante o movimento detectado na rua.
Vasco Pires e Liliana Silva reúnem bases em física, empreendedorismo, engenharia electrotécnica e informática. Na prática, o sistema pensado pelos jovens funciona como um retrofit: em vez de substituir a infra-estrutura existente, a Lumination encaixa um módulo de cerca de 20 euros em cada candeeiro, complementado por uma subscrição mensal de 12 euros destinada à manutenção e optimização. Aplicado a uma cidade como Lisboa, com os seus aproximadamente 70 mil candeeiros, o projecto estima poupanças que podem chegar aos 4 milhões de euros por ano. «Se a verdadeira iluminação vem de tornar a escuridão consciente, então talvez esteja na altura de fazermos o mesmo e devolvermos o céu estrelado às nossas cidades».
A final mundial, sediada em São Francisco, acabou por ser vencida por Darnell Adler, dos Estados Unidos da América, com o projecto Lifeline AI, uma aplicação que permite enviar alertas de emergência de forma silenciosa e discreta, sem necessidade de desbloquear o telemóvel ou de efectuar uma chamada. A vitória valeu a Darnell Adler um prémio de 100 mil dólares destinado ao financiamento do projecto, um pacote de recursos avaliado em 25 mil dólares em créditos Microsoft Azure, e ainda mentoria da Red Bull Ventures.
Antes da viagem aos Estados Unidos
A final nacional do Red Bull Basement Portugal, que decidiu qual a equipa a representar o país em São Francisco, realizou-se no Instituto Superior Técnico (IST) e juntou cerca de 1300 candidaturas, das quais sobreviveram apenas dez equipas finalistas. O júri nacional, composto por Agnelo Santos, Component Sales Account Manager para Ibéria e Itália na AMD, Elisa Tarzia, co-fundadora e vice-presidente da 351 Portuguese Startup Association, Mia Carrapatoso, fundadora da RewU, e Pedro Amaral, vice-presidente para a Interface Empresarial, Inovação e Empreendedorismo do IST, acabaria por ser unânime em alertar que uma das maiores fragilidades de todos os processos é a protecção da tecnologia.
À businessIT, os dois estudantes do IST confirmaram que esse foi, de facto, o ponto que mais reteve a sua atenção entre todo o feedback recebido do júri, confirmando a intenção de patentear tanto o dispositivo como o software, mas que isso dependia de investimento que ainda não tinham conseguido reunir. Quanto à viagem aos Estados Unidos, Vasco Pires e Liliana Silva encararam São Francisco como algo muito além de uma simples competição. «Representa uma grande oportunidade para representar tanto o Técnico como Portugal, como todos os engenheiros portugueses». Mesmo sem vencer, sublinharam, a final mundial foi uma porta de entrada junto de investidores e «pessoas que querem apostar na ideia. Acho que pode ser super importante para levar o projecto para a frente».
A protecção que falta a Portugal
Foi precisamente este tema, o da protecção da inovação, que a businessIT levou de volta a Pedro Amaral. Para o vice-presidente para a Interface Empresarial, Inovação e Empreendedorismo do IST, os jovens empreendedores chegam frequentemente com excelentes ideias, mas falham depois na parte que garante que essas ideias lhes pertencem verdadeiramente. Quando uma equipa desenvolve um algoritmo proprietário, seja na forma como comunica, interage ou aprende, é nesse diferencial que reside o valor do projecto. Pedro Amaral explicou que, em muitos casos, a saída passa por associar o software a algum tipo de hardware, proprietário ou suficientemente protegido, que comprove na prática que a tecnologia funciona de modo diferenciado do resto do mercado. Sem essa salvaguarda, alertou, o risco é claro: «acabam por comunicar o modelo de negócio, acabam por comunicar a ideia, e depois obviamente é replicável essa ideia». Qualquer concorrente, lembrou, pode depois usar a tecnologia que já possui para reproduzir essa mesma ideia.
O vice-presidente do IST foi ainda mais longe ao situar este problema no contexto nacional. Para Pedro Amaral, «Portugal continua a perder muito por não ter, antes de mais, uma estratégia de protecção da inovação e, depois, de transferência de tecnologia e licenciamento». A lógica, explicou, não passa necessariamente por enriquecer directamente com a própria ideia, mas por garantir uma posição que permita vendê-la ou escalá-la mais tarde, através de licenciamento ou de venda directa. «Sem essa protecção, o risco é o inverso: quando não tenho, outro vem, passa por cima e eu fico sem nada».









