Entrevista

«É extremamente importante para uma marca de tecnologia manter o aspecto emocional humano»

Entrevista a Emmanuel Fromont, corporate VP e presidente de operações EMEA da Acer.

Emmanuel Fromont © Acer

No âmbito do evento de comemoração dos 50 anos da Acer, que decorreu em Milão, conversámos com Emmanuel Fromont sobre a estratégia da empresa, a diversificação do portfólio e as apostas na IA, no segmento das PME e na sustentabilidade.

Quais são as principais prioridades estratégicas da Acer para a região EMEA?

A primeira é reforçar o negócio principal, que é o nosso negócio de computadores, monitores e projectores. Nesse sentido, vemos um grande potencial de crescimento nos segmentos das PME e da educação. Já somos muito fortes no segmento de consumo, no qual temos uma quota de mercado de dois dígitos, entre 10 e 15%, na maioria dos mercados. Queremos, naturalmente, continuar a crescer, mas cremos que o nosso potencial está nas PME ou no sector empresarial. A segunda parte da estratégia é criar resiliência ao ter mais negócios além dos PC, e é por isso que, no segmento de consumo, temos cada vez mais dispositivos, como routers, e-scooters, e fizemos recentemente algumas aquisições, como a Posiflex e a Opticon para reforçar a nossa oferta comercial e ter um portfólio mais vasto. Portanto, trata-se de uma combinação entre crescer o negócio principal e ser resiliente através de um portfólio diversificado.

O que vos distingue da concorrência?

Penso que os nossos pontos fortes sempre foram a flexibilidade e a agilidade; como sabem, somos uma empresa mais pequena do que as outras e isso traz tanto inconvenientes como vantagens. E talvez seja por isso que nos concentramos um pouco mais nas PME, porque não temos uma equipa para lidar com grandes contas corporativas. Continuamos a lançar novos produtos, temos clientes fiéis e somos muito rápidos a reagir quando estes precisam de apoio; ajudamo-los numa transacção ou numa proposta, contactamo-los. Acho que este é um dos nossos pontos fortes e muitos revendedores reconhecem isso. Somos muito resilientes e muito sólidos. Conseguimos sobreviver 50 anos e vamos continuar. E, no futuro, poderão surgir novos players nos mercados, principalmente da Ásia. Estes 50 anos de história, esta fiabilidade e esta solidez financeira de sermos uma empresa lucrativa de mais de mil milhões de dólares também nos ajuda a tranquilizar os nossos parceiros que reconhecem que somos de confiança.

Falou sobre as PME. Qual é o maior desafio que têm neste segmento, que representa a maioria das empresas no mercado europeu?

O principal desafio é que são milhões de empresas espalhadas por todo o lado. Portanto, o alcance é realmente o principal obstáculo. É por isso que trabalhamos através de parceiros e isso ajuda muito. Mas eles têm uma capacidade limitada para responder a todos esses clientes, e precisam de material. O nosso desafio número um é, mais uma vez, ter uma história convincente para que, no final, quando um utilizador disser «quero comprar um computador», a Acer seja a marca que venha à cabeça. E quando as pessoas forem perguntar à IA qual é PC que devem comprar, a resposta mais popular seja a Acer. Os nossos produtos são bons e, assim que o cliente experimentar a Acer, está tudo ok. Mas conseguir entrar é, sem dúvida, o desafio número um nesse segmento.

A Acer está a expandir o seu portfólio, que já não é apenas de computadores. Quais são as vossas perspectivas de crescimento e a estratégia na área não-PC?

A estratégia tem dois aspectos. O primeiro é onde podemos aplicar o nosso I&D noutros domínios. Hoje em dia vemos muitas empresas asiáticas, por exemplo, que eram fabricantes de computadores e passaram a fabricar automóveis. A razão pela qual são boas a fabricar automóveis é que os automóveis se tornaram software, e elas são boas em software. Para Acer, isto acontece numa escala mais pequena. Assim, costumávamos ter telemóveis, mas esse mercado era difícil e decidimos não fazer mais esses equipamentos, mas tínhamos uma equipa que tinha o conhecimento, e agora fazemos routers. A outra forma, claro, é através de aquisições. Assim, temos dois elementos que nos ajudam a crescer: o I&D através de negócios adjacentes e complementando o nosso portfólio onde é um pouco fraco através de aquisições.

Mas continuam a ser um fabricante de computadores. Quais são as vossas expectativas para este ano, tendo em conta a escassez de memórias e outros componentes?

Vai ser um ano muito estranho, porque nunca vimos esta evolução de preços. O preço da memória literalmente duplicou desde há seis meses para cá, e continua a subir e os SSD estão na mesma situação. Depois, todos os outros componentes, como as baterias, também estão a subir porque o cobre, o ouro e a prata estão a subir. Não temos dúvidas de que, na segunda metade deste ano, o preço do PC será muito mais alto. Hoje, ainda não se sente isso porque continuamos a vender os PC que produzimos há seis ou quatro meses. O desafio é como convencer as pessoas a comprar um PC premium. Investir num computador, tal como num carro, ou seja, comprar um PC premium, mas mantê-lo durante cinco ou seis anos. Para empresas como a nossa, provavelmente a procura começará a diminuir, mas se vendermos PC premium, o valor do mercado pode manter-se. O essencial é que as pessoas não sintam que estão a comprar o mesmo PC de antes, mas muito mais caro. Mas sim que estão a comprar um PC premium com IA que pode fazer muito mais do que o antigo. Acho que esta é a ideia principal.

A Acer está a colocar um grande foco na IA. Quais são os seus planos para o futuro no que diz respeito a esta tecnologia?

Vemos a IA como um forte motor para os próximos anos, porque a inteligência artificial e o edge computing vão tornar-se cada vez mais importantes devido aos custos. Recorrer constantemente à nuvem para tudo e mais alguma coisa consome muita energia e há muitos custos ocultos. Por outro lado, para se encontrar a verdadeira produtividade das ferramentas de IA, terá de se fornecer dados pessoais e confidenciais a essa IA, e isto, mais uma vez, pode não passar pela nuvem. Assim, acho que os pequenos modelos de linguagem (SLM) a funcionar no PC vão ganhar destaque em relação aos LLM a funcionar na nuvem. Acreditamos que em todas essas tendências estavam bem posicionados. Trabalhamos com a Microsoft e a Google e esperamos que o PC tenha uma espécie de ressurgimento através da IA. Acreditamos que se trata de integrar a IA em tudo o que fazemos, incorporada na nossa vida. E também somos uma grande empresa de gaming e considero que a IA deve estar nos jogos. É aqui que também vejo a tecnologia no futuro a ser empolgante.

De que forma é que a Acer está a incorporar a sustentabilidade nos produtos e operações?

Temos a gama Vero que é agora composta por 80 % de plástico reciclado pós-consumo (PCR). Levámos o Vero ao limite e tornámo-lo um ícone da sustentabilidade, ma tem um preço bastante elevado, pelo que é menos acessível ao grande público. Mas incorporámos toda a inovação dessa gama em todos os nossos produtos de consumo; todos os produtos que lançamos têm cerca de 30 a 50% de PCR. A Vero foi também onde concebemos a primeira caixa sem plástico; agora, nenhum PC tem plástico na caixa. Na parte de logística, trabalhamos principalmente com biocombustível, começámos a ter camiões eléctricos e estamos a preparar-nos para as emissões neutras em carbono. É apenas em 2050, mas não podemos esperar até 2048 para pensar em como vamos lá chegar. Já estamos a analisar todos os processos para ver o que podemos fazer; por exemplo, a ACER EMEA já utiliza 95% de electricidade renovável. Levamos a sustentabilidade muito a sério e queremos garantir que não há greenwashing. Para isso temos no nosso site uma secção onde apresentamos todos os factos sobre o que estamos a fazer em matéria de sustentabilidade e é bastante impressionante.

A Acer faz 50 anos em 2026. Como gostaria de ver a empresa/marca nos próximos anos?

Estamos na era da IA, mas percebemos que também é importante saber ouvir. Tal como disse o futurista Gerd Leonhard uma marca pode ser o rei da IA, mas precisa na mesma de ser apreciada. Assim, a confiança, o carácter premium e manter a humanidade são muito importantes. Espero que a Acer consiga desenvolver uma imagem de uma empresa de tecnologia que através da sustentabilidade, da visão e da confiança, de modo que se mantenha uma ligação emocional ente a marca e consumidor. Acho que é extremamente importante para uma marca de tecnologia manter esse aspecto emocional humano. Gostaria que as pessoas sentissem que a Acer é uma marca cool e que a nova geração sinta que estamos a fazer algo pelo planeta e estamos nisso a sério. Esta é a mãe de todas as batalhas. Se aproveitarmos bem o ecossistema, o produto não terá problemas, mas esse aspecto da marca é crítico.

 

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