Até 2035, 76% dos líderes tecnológicos portugueses acreditam que as suas organizações serão alvo de ciberataques materiais. O dado, revelado pelo estudo ‘IT Future Trends 2035’, da Compuworks, é o ponto de partida de uma década que promete redefinir o papel da tecnologia nas empresas e expor fragilidades estruturais do tecido digital europeu.
Aliás, o documento aponta a geopolítica digital como pano de fundo de uma Europa que ambiciona autonomia tecnológica, mas que continua dependente de potências externas. Apenas 12% dos líderes portugueses acreditam que o continente atingirá liderança tecnológica até 2035, enquanto 92% da cloud europeia permanece controlada por empresas norte-americanas.
Os números acentuam o desequilíbrio: 80% dos semicondutores usados na União Europeia são importados, e as cinco maiores tecnológicas dos Estados Unidos investem mais em investigação e desenvolvimento do que todos os 27 estados-membros juntos. Ainda assim, 74% dos inquiridos consideram que a ciberdefesa será decisiva para garantir soberania digital, e 68% defendem maior cooperação internacional como resposta.
Portugal entre o talento e as barreiras estruturais
Apesar do reconhecimento internacional do talento nacional, o estudo evidencia entraves à competitividade: escala reduzida, subinvestimento em inovação e dificuldade em reter profissionais especializados. Em Portugal, apenas 5,2% do emprego é ocupado por especialistas em TIC, e só 22,7% desses são mulheres.
A transformação digital avança, mas a maturidade empresarial continua limitada. Mais de metade da população (56%) possui apenas competências digitais básicas. O Estado reforça o investimento público – 4,5 mil milhões de euros do PRR e 2,4 mil milhões dos fundos de coesão destinam-se ao digital –, mas as empresas admitem dificuldades em acompanhar o ritmo europeu e em converter investimento em produtividade. Cerca de 65% dos líderes portugueses acreditam que as TI deixarão de ser apenas suporte para se tornar área estratégica do negócio.
A sensação de vulnerabilidade atravessa todas as respostas: 58% dos líderes admitem não estar preparados para reagir a um incidente e 67% já sofreram perdas de dados no último ano, em 92% dos casos provocadas por ameaças internas. Metade das organizações ainda não implementou arquitecturas de Zero Trust ou XDR e apenas 27% combinam ambas as soluções.
Apesar disso, cresce a consciência de que a cibersegurança é um factor de continuidade do negócio e não apenas uma preocupação técnica. Já 83% dos inquiridos defendem o investimento em inteligência artificial para reforçar a defesa digital, e regulamentos como o NIS2 e o DORA são vistos como aceleradores indispensáveis de maturidade.
IA: potencial e descompasso
A inteligência artificial aparece como o grande catalisador de mudança, mas ainda com aplicação limitada. Mais de metade das empresas (55%) está a desenvolver ou a considerar soluções de IA, sobretudo em geração automática de código (47%) e administração de sistemas (42%).
A maioria dos líderes (62%) acredita que a IA terá impacto profundo nos métodos de trabalho até 2035, embora 38% identifiquem a falta de competências e cultura organizacional como principal entrave à adopção. O risco, segundo o estudo, é Portugal continuar na posição de “follower” se não acelerar o investimento em formação e integração prática.
O estudo prevê ainda uma transformação no perfil humano da tecnologia. 69% acreditam que o modelo híbrido de trabalho será predominante em 2035, combinando flexibilidade e produtividade.
As competências mais valorizadas serão a cibersegurança (72%), a inteligência artificial (68%), a visão estratégica (64%) e a capacidade de adaptação (58%). O profissional de TI será cada vez mais chamado a liderar processos de mudança, comunicando com gestores e influenciando decisões de negócio.









