Entrevista

«IA deixou a fase de experimentação e entrou na execução»

Entrevista a Ricardo Martinho, presidente da IBM Portugal.

© IBM

A IBM Portugal está a acelerar a adopção de inteligência artificial empresarial, reforçando a aposta na cloud híbrida e na computação quântica como motores de transformação. Para Ricardo Martinho, presidente da tecnológica, o tempo da experimentação acabou: as empresas querem retorno real, segurança e soberania tecnológica.

A inteligência artificial, sobretudo a generativa, tem acelerado de forma abrupta o ritmo de adopção tecnológica. Onde é que a IBM se está a posicionar nesta fase e que diferenciação apresenta face a concorrentes globais, muitos deles já nascidos noutra era tecnológica?

Não vejo o legado como uma desvantagem, por causa da adaptabilidade que a IBM sempre foi capaz de ter. Apesar de não termos nascido como uma empresa de IA, conseguimos transformar a IBM numa empresa de IA. E a nossa grande diferença é que apostamos e posicionamos a nossa inteligência artificial para as empresas. Aqui há um ponto que acho fundamental: esta diferenciação entre o uso pessoal e o uso empresarial. A inteligência artificial para empresas é outra coisa e as pessoas têm de ter essa noção.

É uma das lutas da IBM na questão da literacia em inteligência artificial. Todos nós ouvimos as pessoas a falarem e parece que são todos grandes especialistas em IA, não é? Todos acham que sabem da matéria, mas, na aplicação prática, as coisas diferem muito. Portanto, nós ficamos na parte da inteligência artificial para empresas, e isso traz um cariz diferente, nomeadamente no que diz respeito aos dados. Há sempre uma preocupação muito grande das empresas na protecção dos seus próprios dados. As nossas soluções de IA permitem que os dados estejam onde a empresa quiser: nas próprias instalações, on-premise, em clouds privadas ou em clouds públicas.

A nossa inteligência artificial trabalha nesse sentido. Por um lado, dá essa flexibilidade. Por outro, uma das componentes fundamentais, no nosso ponto de vista, é a governança e a transparência. Isto é uma das grandes tendências dos próximos anos, 2026 para a frente. Os utilizadores estão cada vez mais abertos a que as empresas usem inteligência artificial, mas querem clareza e transparência. Não gostam de ser enganados, de lhes dizerem que algo é feito de determinada forma quando, na realidade, é IA a fazer.

Não há problema nenhum em usar IA, mas tem de ser claro. E nós somos a única empresa com um sistema de governança associado a uma ferramenta de inteligência artificial. Isso permite que as empresas saibam de onde vêm os dados, que tipo de dados estão a usar, que modelos estão a aplicar, como é que os dados da sua própria empresa são incorporados nesses modelos para gerar vantagem competitiva e não estarem todos a usar os mesmos modelos e a obter os mesmos outputs. Assim, conseguem ter essa visão, saber para que é que estão a usar a IA e qual é o fim a que se destinam esses modelos. Esta governança, transparência e ética são obrigatórias para que a inteligência artificial nas empresas seja verdadeiramente bem aceite.

Há hoje muito debate sobre modelos de IA responsáveis, seguros e auditáveis. Que papel é que a IBM pretende assumir no desenvolvimento e implementação destes princípios, tanto internamente como junto dos clientes? E de que forma o peso da marca vos ajuda nessa aproximação?

Sem dúvida. Para lhe dar um exemplo, somos a única empresa no mundo em que qualquer cliente que compra a nossa plataforma de inteligência artificial, o WatsonX, que já inclui estes sistemas de governança, recebe por contrato a garantia de que, se alguma vez for acusado de violação de copyright, a IBM paga a multa. Somos tão assertivos e estamos tão confiantes nos modelos de governança e na qualidade dos dados que asseguramos que não usamos dados que não possam ser usados ou fontes que não possam ser utilizadas.

Esta é a nossa posição para dar confiança às empresas, para saberem que podem usar modelos de IA com a certeza de que a sua informação está protegida e não está a ser partilhada com o resto do mundo. À medida que fazem perguntas sobre matérias internas, a resposta vem do interior da própria empresa. Essa confidencialidade é uma vantagem enorme.

Os nossos modelos preveem esta utilização responsável e transparente. E é de tal forma assim que, desde o início da discussão sobre o AI Act na União Europeia, a IBM foi das pioneiras a juntar-se ao processo regulatório para ajudar a definir princípios éticos, de responsabilidade e de transparência na utilização da inteligência artificial. Este é o nosso pilar basilar e daí a grande diferença entre a utilização empresarial e a utilização pessoal.

Que sectores da economia portuguesa estão hoje mais avançados na transformação digital e quais continuam a apresentar maiores barreiras? E esta postura face ao digital tem vindo a mudar nos últimos anos?

Diria que sim, sentimos que há mudanças nessa abordagem. Por quê? Porque vivemos num mundo com muita incerteza, cada vez mais, infelizmente. Mas essa incerteza não é necessariamente uma desvantagem, é uma grande oportunidade para as empresas. Se se transformarem digitalmente mais rápido, vão conseguir agarrar nichos e vantagens que se traduzirão em ganhos num futuro próximo. Vemos as empresas a apostar cada vez mais na digitalização e estamos agora num momento em que acabou a fase da experimentação. A IA já foi muito experimentada, toda a gente já viu como funciona. Estamos a passar da experimentação para a execução: casos práticos, casos reais que trazem vantagem competitiva às empresas. É fundamental que percebam esta vertente da IA. E estão a perceber. Estão a tentar usar ao máximo essa vantagem e tirar partido destas tecnologias.

Hoje, o que é que vos é pedido enquanto fornecedor de soluções? As empresas já querem ver impacto real no negócio? Depois da fase de experimentação, o investimento em IA tem de se reflectir nos resultados?

Tem de se reflectir e tem de existir um retorno directo. E nós já conseguimos contabilizar esse retorno. Adoptámos uma estratégia que me parece muito acertada: criámos uma solução chamada Client Zero, em que damos o exemplo usando as nossas próprias tecnologias para melhorar a operação, a automatização e a utilização de inteligência artificial.

Na área de recursos humanos, todas as perguntas que os nossos colaboradores tinham sobre o seu dia-a-dia são hoje respondidas por IA e não pelos colegas que tínhamos nos centros de atendimento. Isto poupou milhares de horas de resposta, com melhorias de cerca de 40% ao nível da rapidez e 60% ao nível da eficácia. Na criação de código, o nosso Code Assist permitiu poupar centenas de milhares de horas aos consultores, com uma assertividade superior a 70%. Estamos a usar a nossa tecnologia para nosso proveito e como caso de uso para mostrar aos clientes. Eles podem ver estes resultados.

E, obviamente, querem alcançar o mesmo: poupanças e benefícios claros da utilização desta tecnologia. Posso dar o exemplo de um cliente nosso das telecomunicações. Para responder às perguntas do dia-a-dia, conseguiram reduzir 160 mil horas de trabalho humano – um valor muito significativo –, reduzir custos em cerca de 60% e melhorar o serviço em cerca de 80%. Estes números são obtidos nesta passagem da experimentação para a execução, e isso é fundamental.

Um ponto adicional: esta fase da execução está muito ligada à IA generativa. Mas o ponto em que estamos agora, com os agentes de IA (agent AI) e a automatização suportada por estes agentes, permite uma mensuração muito mais fácil, porque os processos passam a estar automatizados pela IA. Este retorno é claro e é isso que nos pedem. Querem começar, mas há vários estádios. Há empresas que estão a iniciar, outras muito mais avançadas. Não depende tanto do sector, mas sim da política de transformação digital de cada empresa.

No meio de tudo isto temos o talento, ou a falta de talentos. A dificuldade em contratar, formar e reter mantém-se? Que políticas tem a IBM para atrair, formar e, sobretudo, reter talento?

Sou um desses exemplos. Estou cá há 28 anos, nunca tive outro emprego, trabalhei sempre nesta empresa e já fiz tudo o que havia para fazer aqui dentro. Ainda não fui director-geral, mas também não é a minha ambição. Já fiz um bocadinho de tudo. É isso que procuramos na IBM. Apostamos muito na formação e no desenvolvimento dos novos talentos e dos colaboradores que já cá estão. Há uma evolução contínua e constante. Temos formação obrigatória em determinadas áreas, dependendo das nossas funções e responsabilidades, e damos essa capacidade. Hoje temos mais de cinco mil pessoas a trabalhar em I&D, temos seis Prémios Nobel, que conseguiram atingir o Nobel porque lhes damos tecnologia para investigar e trabalhar estas matérias.

Tentamos reter talento com condições que achamos justas e alinhadas com o mercado. Se pagássemos o salário mínimo, as pessoas iam-se embora. Para além das condições financeiras, damos carreira, continuidade, formação e, acima de tudo, espaço para fazerem aquilo de que realmente gostam. A IBM tem 240 mil colaboradores em todo o mundo.

Quem entra em Portugal não é obrigado a ficar em Portugal a vida toda. Pode mudar. Comecei como consultor, já fui director de software, programador, gestor de serviços de infra-estrutura… já fiz muita coisa. Conseguimos que as pessoas encontrem aqui dentro aquilo que as faz sentir bem. E isso é fundamental para reter talento.

Depois de uma pandemia e num contexto global tão volátil, pedir previsões já se tornou quase impossível. Mas qual é a vossa visão para o papel da IBM nos próximos cinco anos?

Acho que vamos continuar a solidificar a base de três grandes pilares: o híbrido, a inteligência artificial e a computação quântica. Não vamos mudar de estratégia: vamos continuar a apostar na inteligência artificial, na cloud híbrida e na computação quântica. E vamos todos sentir uma diferença abismal entre aquilo que conhecemos hoje como transformação digital e o que será a utilização da tecnologia com a entrada da computação quântica já a partir do próximo ano. Vamos começar a sentir, na prática, o que é a computação quântica. Não é ficção científica, embora muitos ainda pensem que é. Muitos nem sequer estão a preparar-se para as consequências desta tecnologia, que pode trazer benefícios enormes, mas também riscos, como a quebra de encriptações ou o impacto nas cadeias de blockchain. Temos de nos preparar.

Mas a computação quântica vai permitir-nos chegar a pontos que até hoje eram impensáveis. E, por isso, acredito que nos próximos cinco anos o foco será esse. Até porque – e usou bem o horizonte de cinco anos – é exactamente esse o prazo que estimamos para criarmos o supercomputador quântico que estamos a desenvolver em parceria com a Universidade de Tóquio e a Universidade de Chicago. Será um supercomputador com mais de cem mil qubits, combinando computação quântica e tradicional, tolerante a falhas, e que vai mudar tudo aquilo que hoje conhecemos como realidade tecnológica.
Nos próximos cinco anos, esta junção entre computação quântica e inteligência artificial vai colocar a IA num estado que ainda não conseguimos imaginar. Vai evoluir tremendamente. E esta componente da cloud, de que falamos menos, mas que é tão importante, vai permitir ligar tudo à realidade das infra-estruturas e arquitecturas das empresas actuais.

Nós não podemos pedir a toda a gente que mude, de um dia para o outro, todos os investimentos que fez. Por isso, a aposta nas novas tecnologias articuladas com tecnologias maduras, e também nas tecnologias abertas, será fundamental para que estas três áreas libertem todo o seu potencial, que está apenas a começar e que, já no próximo ano, começará a mostrar o que realmente pode trazer. Portanto, nos próximos cinco anos, a aposta é clara: computação quântica ligada à inteligência artificial, suportada pela cloud e pela capacidade híbrida. Sem dúvida.

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