A Atos realizou recentemente uma reorganização e reposicionamento no mercado nacional. Falámos com Daniel Luz sobre esta estratégia e sobre o Local Delivery Center do Algarve, que é um dos elementos-chave da proposta de valor da tecnológica no País.
Actualmente, como é que a Atos se apresenta? E qual a estratégia para o mercado nacional?
Estamos em Portugal, de uma forma ininterrupta, há mais de 15 anos e é interessante que tenhamos que nos apresentar ao mercado porque muito pouca gente nos conhece. Isso é algo que temos de mudar. O que fazemos em Portugal tem sido muito consolidado ao longo do tempo e sempre muito à volta das aplicações. Aquilo a que nos propomos é conseguir fazer, em Portugal, exactamente o mesmo que fazemos noutras geografias. Para isso, temos que alargar o nosso espectro em termos de soluções e começar a trabalhar mais, juntamente com os nossos parceiros,em infraestrutura, cloud managed services, toda a parte de cibersegurança, Data&AI. Temos uma oferta global neste momento que não tínhamos há algum tempo. É nisto que estamos a trabalhar de uma forma mais vincada.
Depois temos toda a linha de serviços de mission critical sobre a marca Eviden. Em Portugal, por exemplo, fizemos o projecto de avisos às populações das barragens e pouca gente sabe. Trabalhamos com as grandes entidades que fazem a gestão das barragens, mas todo o sistema de alarmística à população é nosso.
As vossas áreas de actuação têm-se vindo a alterar nos últimos tempos ou têm-se mantido?
O negócio aplicacional é a nossa génese e corresponde a cerca de 90% do que fazemos hoje. Mas, já este ano, vamos ter outras áreas a ter uma preponderância maior nos nossos números. Neste momento, estamos com negócios muito interessantes para fechar no segundo semestre que são, exactamente, negócios de infraestrutura, de cloud management e também na área de cibersegurança. Hoje em dia, as soluções vêm todas integradas e falamos de uma área noutra em que estamos a apostar,que é a dos dados. Assim, toda a parte de data management e data sovereignty são áreas de aposta para Portugal e vamos, rapidamente, começar a ter negócios com alguma expressão.
Como é que está a ser o ano de 2026 para a Atos em Portugal?
Um dos primeiros passos que fizemos neste ano foi revisitar o nosso portfólio e recentramo-nos naquilo que já fazíamos bem para conseguir partilhar com os nossos clientes e nossos parceiros. Contratámos, de uma forma muito cirúrgica, um conjunto de pessoas que nos permitem chegar a outras áreas e a outros mercados. Isso é importantíssimo para conseguir implementar a estratégia que queremos para Portugal.
O que torna a oferta da Atos Portugal diferenciadora dos outros players?
Centramo-nos muito nas soluções, nos parceiros, nos clientes e nos nossos colaboradores. A única métrica que nos interessa é o feedback daquilo que fazemos. Em primeira instância, isso acho que é um diferencial. Reforçamos a equipa e, na sessão de final de semestre, o feedback espontâneo das pessoas foi que aquilo que encontram aqui já tinham ouvido falar, mas nunca tinham vivido. As pessoas são acolhidas e fazem parte da equipa. E quando alguém chega e sabe exactamente qual é o seu lugar e como é que pode contribuir, significa que a engrenagem funciona bem. Depois temos uma equipa que foi, de alguma forma, redesenhada e reposicionada para ajudar o cliente na solução. Dividimo-nos na área de Growth e em business lines que são o Digital, o Data&AI, o Digital Workplace, o CMI [cloud & modern infrastructure] e Cybersecurity. Estas são as nossas principais valências e áreas de portfólios e estão preparadas para suportar a venda. As equipas, ao mesmo tempo que suportam uma venda, têm a ambição e a necessidade de criar e cuidar do portfólio de uma forma evolutiva. E,se tenho um portfólio, tenho de criar especialização e tenho de cuidar das pessoas para conhecerem esse portfólio e serem verdadeiramente especialistas naquilo que fazem. E, portanto, é esta simbiose que existe entre a proposta de venda, o cuidar do portfólio, o garantir que as pessoas são especializadas e depois a área de operações que verdadeiramente nos torna diferenciadores. Há produtos para todas as necessidades que o mercado tem, mas a orquestração entre os mesmos e a forma como conseguimos entregá-los e tornar a sua usabilidade fácil, creio que é o verdadeiro diferencial. E procuramos ocupar áreas que estão por ocupar, é isso que tentamos fazer.
Quantos profissionais tem a operação da Atos em Portugal?
O escritório de Lisboa é um escritório comercial, que tem todas as funções. O escritório de Faro é um local delivery center, um centro vocacionado para o desenvolvimento e que tem áreas de suporte muito focadas na gestão de pessoas, designadamente a contratação e a formação. No total, temos, entre colaboradores e um conjunto de externos que trabalham connosco de forma recorrente, 550 pessoas. Neste momento, em Faro temos 150 pessoas e as restantes estão concentradas em Lisboa.
Que balanço fazem do Local Delivery Center (LDC) no Algarve?
Já está consolidado, faz parte da nossa identidade. Neste centro, toda a nossa equipa tem um grande nível de senioridade e de conhecimento que dificilmente se encontra noutras realidades. Inicialmente, apareceu também voltado para nos ajudar a crescer no mercado internacional, dentro do grupo. Hoje, mantém-se essa proposta de valor, mas o foco é, de facto, o mercado português. Aquilo que queremos e que declaramos é o crescimento orgânico em Portugal. Temos uma relação extraordinária com a Universidade do Algarve, do ponto de vista institucional, mas também cada vez mais vinculada àquilo que é a inovação e às propostas de valor que fazemos em conjunto. Colaboramos activamente, sempre que possível, também na formação e na criação dos CTeSP com a própria universidade. E, neste momento, aquilo que queremos fazer é levar estas relações institucionais também para outros organismos no Algarve. Este é o passo seguinte de maturidade do Delivery Center. É agradecer e devolver à região aquilo que a região já nos deu. E, para isso, também reforçámos e mudámos um pouco a nossa orgânica para ter uma posição de suporte à venda estratégica para a região.
Quais são as perspectivas de crescimento do LDC?
O desafio maior, quando criámos o Delivery Center, foi saber se teríamos o capital humano para conseguir montar aquilo que antevíamos que seria o centro. Cremos que o LDC pode crescer até três vezes a dimensão actual, ou seja, ter três vezes mais pessoas do que aquelas que tem hoje.
E em termos de soluções?
O último passo que demos foi criar dentro do LDC um centro de excelência de IA. Fizemos isso no ano passado e tem vindo a crescer de forma muito interessante e a validar o modelo que temos de criação de equipas especializadas. Ao mesmo tempo, temos também equipas de produto e toda a nossa área de inovação. Tudo aquilo que vamos fazendo como diferenciadores e aceleradores está baseado no Algarve. Tiramos partido da dinâmica que existe no laboratório e da inovação, directamente a partir das equipas de Faro. As grandes apostas que fizemos recentemente foram o centro de excelência de IA e uma iniciativa equivalente na área de observabilidade.
Qual é a vossa estratégia em termos de IA?
Temos parcerias globais que não tínhamos solidificadas nem tão próximas a nível local. Uma das primeiras coisas que fizemos foi alinhar aquilo que é a estratégia local com a estratégia global. Também fizemos um trabalho de consciencialização e abertura para as plataformas da IA, depois democratizámos o uso da IA através das ferramentas e também do mindset. Colocámos a nossa equipa de change management a acompanhar todos os projectos e todas as ofertas que fazemos. Porque mais do que introduzir as pessoas na tecnologia,é introduzir as pessoas na mudança. E a mudança não é aquela que está na oferta, é aquela que vai ocorrer ao longo do projecto.
Além deste movimento, que é um movimento corporativo e de equipa, estamos a desenvolver aceleradores com os nossos parceiros para garantir que, independentemente da tecnologia, temos formas muito próprias de acelerar e levar a mudança, particularmente com soluções próprias que estamos a desenvolver, como frameworks agênticas de desenvolvimento, cuja reacção que temos tido dos nossos clientes e parceiros é excelente. Temos métricas, por comparação com ferramentas e frameworks equivalentes de terceiros, e as nossas estão muito avançadas porque nos centramos nas pessoas e não nos centramos nos desafios da tecnologia. Aquilo que fazemos é agnóstico de LLM, é agnóstico de plataforma, é centrado na usabilidade e é centrado na transformação das pessoas que têm receio de utilizar a tecnologia, mas que necessitam urgentemente de utilizar a tecnologia. Não se trata de colocar uma framework de IA num cliente, trata-se de ajudá-lo a liderar a transformação das suas equipas e do seu negócio. A nossa principal preocupação é que as nossas equipas consigam também transmitir esta mesma forma de trabalho aos clientes.
Foi nomeado country manager para Portugal no início do ano. Que balanço faz e quais os objectivos que tem neste cargo?
Os meus objectivos estão alinhados com os objectivos da empresa. O que nos propusemos é, nos próximos três anos, termos um CAGR acumulado de 15%. Isto corresponde, basicamente, se pensarmos no starting point, num crescimento de 50%. Todo ele orgânico. No exercício de equipa, que fizemos recentemente, revisitámos o que projectámos em 2025 que iria acontecer em 2026. A nossa surpresa foi que fizemos exactamente aquilo que achávamos. Portanto, reformulámos a equipa, reformulámos o nosso posicionamento em termos de portfólio, criámos equipas de conta e promovemos muita gente cá dentro. Quanto aos objectivos para o segundo semestre, julgamos que vamos conseguir cumprir com o nosso budget em toda a sua vertente. O alinhamento que as pessoas têm entre elas, a forma como comungam e partilham ideias, para mim foi a melhor validação que poderia ter tido de que aquilo que fizemos nos primeiros seis meses era exactamente aquilo que queríamos ter feito. Este não é um modelo maduro e tem que ser consolidado. É um modelo que vai ganhar velocidade. Mas, ainda assim, em seis meses, trabalhámos mais 20 oportunidades do que no ano passado, em todo o ano. Esta é a dinâmica que quisemos começar a imprimir e que a equipa tem. A ambição também não é a minha, é da equipa. Acho que isso é a única coisa que nos assossega para conseguirmos atingir os nossos objectivos.
Falou na ferramenta que a Atos desenvolveu de alarmística para as barragens, há mais alguma solução inovadora que gostasse de partilhar?
Estamos a trabalhar em três áreas em concreto com IP [propriedade intelectual] nossa. Temos uma solução de desenvolvimento agêntico, que estamos a consolidar, que é tremendamente eficiente e dá um controlo brutal às organizações. Essa é uma linha de transformação, porque é justamente onde as empresas vão ter que investir grande parte do seu esforço e depois é também onde as empresas vão maximizar o investimento que vão fazer agora em private cloud e em private AI. Damos toda uma camada para conseguirem acelerar a utilização com um governance completo e com o desenvolvimento agêntico. Temos também uma outra plataforma nesta mesma linha, que gera toda a componente de data management, data governance e data sovereignty. Há muitas soluções de integração, mas não há nenhuma que orquestre todo este processo como a nossa faz e, portanto, uma vez mais, ocupamos um espaço que não existe. Não existia nenhuma solução que fizesse isso e que desse o controlo à organização de uma forma holística e simples como esta que fizemos. E, por fim, estamos também a trabalhar numa solução de AIOps que junta os ITSM, junta as plataformas de observabilidade, junta todos os canais de suporte que existam, seja de um SOC, seja de um serviço de service desk mais convencional, e orquestra a informação para que não seja necessário ter toda a dispersão associada à gestão destes temas. São as três áreas de aposta onde temos IP nossa e que ocupam espaços que não existem.
Como é que gostaria de ver a Atos dentro de cinco anos?
Gostava que a visão que construímos como equipa para a empresa fosse aquela que atingíssemos. Não sei a que dimensão é que vamos conseguir chegar, obviamente gostaria de ter uma dimensão muito superior àquela que temos hoje. Gostaria que esse crescimento fosse um crescimento não apenas numérico, mas fosse também de headcount. Também gostava que a Atos não tivesse que se apresentar ao mercado e que o mercado conhecesse a Atos de uma forma clara. Gostava que as pessoas nos chamassem porque somos especialistas nestas áreas de que falamos e não tivéssemos de explicar que somos especialistas. Gostava que chegássemos a esse ponto porque significa que o trabalho foi bem feito.









