Além Fronteiras

Europa tenta finalmente ‘segurar’ o que cria

Mais de dois mil e quinhentos participantes reuniram-se em Bruxelas na quinta edição do European Innovation Council Summit, onde a Comissão Europeia lançou oficialmente o Scaleup Europe Fund, o maior fundo europeu de capital de crescimento já criado, e entregou o European Prize for Women Innovators, prémio em que Ella Frances Cullen e Neide Vieira, por Portugal, subiram ao pódio da categoria EIT Women Leadership.

© EIC

Há uma estatística que ‘perseguiu’ Bruxelas ao longo dos dois dias do European Innovation Council Summit: 12 unicórnios, 12. É esse o número de empresas em que o investidor Hermann Hauser, fundador da Amadeus Capital Partners, já participou ao longo da carreira. E foi também ele quem, em palco, fez a conta: «De todos os 12 unicórnios em que estive envolvido, cada um deles acabou nos Estados Unidos». A frase resume o problema estrutural que a União Europeia decidiu finalmente atacar com dinheiro ‘a sério’ e que esteve na origem do anúncio mais aguardado do evento: o lançamento do Scaleup Europe Fund. Mas o European Innovation Council Summit não foi só sobre capital. Foi também, ali ao lado, no mesmo palco, sobre quem ainda não chega a ter acesso a esse capital: as mulheres que fundam e lideram empresas de base tecnológica na Europa. Portugal esteve representado por duas.

Um problema que já tem nome: a fuga das scaleups
O European Innovation Council Summit reclama ter-se tornado, na sua quinta edição, o maior encontro anual entre a comunidade europeia de deeptech e a política de investigação e inovação da UE. Em vídeo-mensagem, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, avançou que o fundo do EIC já mobilizou mais de cinco mil milhões de euros para mais de 350 startups europeias, três das quais se tornaram unicórnios apenas no último ano. Mas o problema, insistiu, está a jusante: «Demasiadas vezes, as empresas tecnológicas mais promissoras da Europa ainda têm de procurar do outro lado do oceano o financiamento de que precisam para crescer».

A comissária europeia para as Startups, Investigação e Inovação, Ekaterina Zaharieva, deu volume a esse diagnóstico, revelando que «no ano passado, criámos 27 mil novas empresas tecnológicas na Europa, com o nosso mercado tecnológico a crescer a um ritmo superior a 10% ao ano». O problema, sublinhou, não é a criação. «Não é falta de inovação. Não é falta de talento. Temos um problema de liquidez».

Foi para resolver esse problema de liquidez que a Comissão lançou oficialmente o Scaleup Europe Fund: um fundo de capital de crescimento gerido privativamente, com um orçamento inicial de cinco mil milhões de euros e ambição declarada de chegar aos vinte mil milhões a médio prazo. Ekaterina Zaharieva detalhou que este instrumento financeiro «vai financiar tickets com uma média superior a 100 milhões de euros por empresa, em áreas como o digital, a biotecnologia, a inteligência artificial, a quântica e a saúde». A gestão do fundo foi atribuída, após concurso competitivo, à EQT, com um conjunto de investidores fundadores que inclui a Novo Nordisk, a CaixaBank, a Criteria, o Santander, a Allianz e o EIFO, entre outros.

Foi o próprio Christian Sinding, da EQT – durante quase trinta anos na gestora e seu CEO entre 2019 e 2025 – quem deu a dimensão real do problema que o fundo tenta corrigir. «A nossa análise mostra que mais de 700 mil milhões, a valores de então (portanto, mais de um bilião a valores actuais), saiu da Europa apenas na última década». E não é só uma questão de dinheiro, insistiu. «Os fundos de crescimento americanos, os fundos de venture capital americanos, agem com muito mais convicção e muito mais rapidez do que nós, na Europa. Não nos faltou apenas capital. Faltou-nos também velocidade».

A ambição final, para Christian Sinding, «é termos múltiplas empresas avaliadas em mil milhões de euros, um ‘trillion-euro company’, um termo que, hoje, ainda nem existe». Hermann Hauser preferiu medir o sucesso de outra forma, com um número que já existe e que expõe a distância actual: a Europa tem hoje apenas cinco «hectocórnios», ou seja, empresas tecnológicas avaliadas em mais de 100 mil milhões de euros, contra 35 nos Estados Unidos.

«Só 9% das patentes são de mulheres»
Foi com esse mesmo vocabulário de défice estrutural que a comissária Ekaterina Zaharieva abriu a cerimónia do European Prize for Women Innovators. «Apenas 9% das patentes são registadas por mulheres», afirmou, antes de acrescentar o dado que torna esse número mais incómodo: «Se olharmos para o desempenho das mulheres quando se licenciam, superam os homens. O mesmo acontece no início de carreira. Mas depois acontece alguma coisa… e, aparentemente, não recebem as mesmas oportunidades».

Na categoria EIT Women Leadership, destinada a líderes de destaque da comunidade do EIT, a vencedora dos 50 mil euros do primeiro prémio foi Ella Frances Cullen, que não sendo portuguesa ‘representou’ Portugal. A co-fundadora e directora de marketing da Minespider, plataforma que usa blockchain e inteligência artificial para rastrear a origem de minerais e materiais em cadeias de fornecimento globais, resumiu a missão da empresa numa frase: «Nenhum mineral deveria ser vendido de forma anónima».

À businessIT, Ella Frances Cullen explicou porque é que essa transparência continua a ser excepção, e não regra: «Sempre se tratou disto como uma questão de compliance. E as pessoas não gostam de compliance. É aborrecido, é caro». O problema, defende, é de perspectiva: «As pessoas têm de começar a perceber que ter dados sobre as suas cadeias de fornecimento e sobre as suas operações pode ser uma vantagem competitiva». E aplica à inteligência artificial uma expressão que nasceu no mundo do blockchain: «Se não tiver bons dados sobre os seus produtos e sobre as suas cadeias de fornecimento, está a meter lixo dentro da IA e não está a criar vantagem competitiva nenhuma».

Sobre o significado do prémio, Ella Frances Cullen liga-o directamente ao défice de patentes femininas referido por Ekaterina Zaharieva: «Este prémio é muito importante para a visibilidade. Acredito que o empreendedorismo é um caminho que, infelizmente, as mulheres não seguem tantas vezes. Talvez sejamos um pouco mais avessas ao risco». A vencedora diz estar «muito entusiasmada com o tipo de cultura de trabalho que podemos trazer. Concentro-me muito nisto na minha empresa, em garantir que as mães têm o tempo de que precisam para estar com as suas famílias».

A ligação de Ella Frances Cullen a Portugal não é de origem, mas de escolha: nascida na Nova Zelândia, veio para Lisboa fazer um mestrado na Universidade Nova, entre os 22 e os 24 anos. «Apaixonei-me completamente por Portugal», recorda. A falta de fluência em português levou-a, na altura, a procurar trabalho em Berlim, «o único sítio na Europa onde, na altura, se conseguia falar inglês e ter mesmo um emprego em tecnologia». Foi a pandemia, e a generalização do trabalho remoto, que lhe deu o pretexto para o regresso: «Foi a minha primeira desculpa para voltar a Portugal, porque foi o meu único amor na Europa. O meu primeiro e único amor na Europa».

Igualdade de género não pode excluir os homens
Na mesma categoria, a portuguesa Neide Vieira, co-fundadora e directora de operações da IPLEXMED, terminou em terceiro lugar. A empresa desenvolve uma plataforma de diagnóstico baseada em biossensores de grafeno capaz de identificar bactérias, vírus e perfis de resistência a antibióticos em apenas 20 minutos, com resultados de qualidade laboratorial.

Após a entrega dos prémios, Neide Vieira partilhou com a businessIT que a sua intervenção nasceu de um desconforto concreto: a constatação de que ainda há quem não veja desigualdade onde ela existe. A consciência da diferença, contou, não nasceu da sua formação académica – onde, de resto, garante sempre ter tido modelos femininos, incluindo uma directora de departamento – mas da maternidade: «Quando fui mãe é que percebi que, de certa forma, é muito injusto». E sublinha que não é uma crítica à maternidade em si: «Não quero de todo passar a ideia de que ser mãe foi mau, foi óptimo. Ganhei outras competências, tive mais força, estava a lutar por mais alguém além de mim». O problema, precisa, está noutro lado: «No mundo do trabalho, ser mãe, ainda hoje, é penalizado».

Questionada sobre o lugar de Portugal neste ecossistema, Neide Vieira é optimista quanto ao potencial – «somos exploradores, somos criativos, gostamos de questionar» – mas admite limitações práticas: «O tipo de investidores que existem em Portugal na área de MedTech ainda são, estruturalmente, um pouco diferentes de outras localizações na Europa».

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