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Saúde abre porta saudita à tecnologia portuguesa

Inteligência artificial para diagnóstico, digitalização de hospitais e novos modelos de prevenção e longevidade. DigestAID, ITGest e NB Clinic procuram transformar a aproximação à Arábia Saudita em projectos concretos.

Alwalid Albaltan © SPBC

A transformação do sistema de saúde da Arábia Saudita está a abrir uma nova frente de internacionalização para empresas portuguesas. Inteligência artificial aplicada ao diagnóstico, integração de sistemas hospitalares, gestão de dados, medicina preventiva ou longevidade são algumas das áreas onde aquele país procura tecnologia, conhecimento e parceiros internacionais. E há empresas portuguesas a tentar ocupar esse espaço.

O movimento acompanha a estratégia de modernização prevista na Vision 2030, que pretende tornar o sistema de saúde saudita mais preventivo, integrado e eficiente, melhorar o acesso aos cuidados e aumentar a participação do sector privado. Segundo o Conselho Empresarial Arábia Saudita-Portugal (SPBC), o país tem mais de 500 hospitais e está a investir também em áreas como a telemedicina, hospitais virtuais e prestação remota de cuidados.

A DigestAID, a ITGest e a NB Clinic «aproveitaram» a oportunidade e assinaram, no final de Agosto, memorandos de entendimento com parceiros locais, embora partam de áreas bastante diferentes: a primeira leva inteligência artificial para a área clínica, a segunda procura oportunidades na transformação digital dos hospitais e a terceira aposta num modelo que junta medicina estética, prevenção, wellness e longevidade. «O nosso papel não termina na identificação de oportunidades. Procuramos aproximar as empresas dos interlocutores certos, facilitar o conhecimento do mercado e criar condições para que esses contactos evoluam para parcerias, investimento, transferência de tecnologia e projectos concretos», explicou à businessIT Alwalid Albaltan, presidente do Conselho Empresarial Arábia Saudita-Portugal.

A aproximação não se limita, contudo, a estas três empresas nem ao sector da saúde. De acordo com Alwalid Albaltan, 52 empresas e organizações portuguesas deslocaram-se à Arábia Saudita nos últimos 14 meses, integradas em delegações oficiais ou para participar em feiras e conferências, em sectores que vão da tecnologia e saúde à indústria, energia, logística e construção. O SPBC estima ainda que mais de 60 empresas portuguesas estejam licenciadas para operar no país até ao final de 2026.

Na saúde, Alwalid Albaltan considera que a dimensão do mercado e o investimento em curso criam espaço para empresas especializadas. «Estamos a falar de um mercado com mais de 500 hospitais, com capacidade de investimento e projectos de grande escala, que procura tecnologia, inovação e transferência de conhecimento».

Miguel Mascarenhas © DigestAID

IA portuguesa para ler 100 mil imagens
Para a DigestAID, a relação com a Arábia Saudita não começa agora. A tecnológica portuguesa colabora desde 2025 com o King Faisal Specialist Hospital & Research Centre, numa relação científica que já resultou em trabalhos nas áreas da inteligência artificial aplicada à saúde digestiva. Um dos primeiros produtos que pretende levar ao mercado é o DeepCapsule, uma plataforma de IA aplicada à endoscopia por cápsula, com marcação CE e autorização da FDA nos Estados Unidos. O problema que procura resolver é facilmente traduzível em números: um único exame pode gerar mais de 100 mil imagens para análise.

«Na nossa validação clínica multicêntrica, a leitura assistida por inteligência artificial apresentou uma taxa de detecção de lesões de 96,1%, face a 76,1% na leitura convencional, com uma sensibilidade de 97,5% e uma redução de até 95% no tempo de leitura», explica Miguel Mascarenhas, CEO da DigestAID.

Para a empresa, o interesse saudita vai, contudo, além da venda da tecnologia. «A ambição é desenvolver novas soluções em conjunto e transformá-las em produtos com alcance internacional. Vemos a Arábia Saudita como um parceiro estratégico para investigação, inovação e crescimento». O modelo passa por juntar médicos, hospitais e equipas tecnológicas para identificar problemas clínicos e desenvolver soluções. «Um problema identificado num hospital saudita pode ser partilhado por instituições em muitas outras geografias», sublinha Miguel Mascarenhas.

Tiago Braga © ITGest

Primeiro os dados, depois a IA
Na ITGest, o ponto de partida é outro. A empresa olha sobretudo para a digitalização dos hospitais, laboratórios clínicos e redes de cuidados e identifica na integração dos sistemas e dos dados uma das primeiras necessidades do mercado. «Um dos principais desafios é transformar a grande quantidade de informação já existente em capacidade efectiva de decisão», diz Tiago Braga, CEO da ITGest. Interoperabilidade, governação dos dados, inteligência artificial para apoio à decisão e monitorização de activos e processos são algumas das áreas onde a empresa acredita poder intervir. Mas, apesar da corrida à IA, Tiago Braga defende que existe trabalho a fazer antes de chegar aos algoritmos. «Sem interoperabilidade, qualidade de dados e uma visão integrada da informação, o potencial da inteligência artificial e da analítica fica naturalmente limitado».

A estratégia começa, por isso, pela integração dos sistemas e gestão de dados, seguindo-se a optimização das operações. Só depois, a inteligência artificial deverá ser introduzida em casos concretos e com resultados mensuráveis. A cibersegurança, garante, terá de acompanhar todo o processo.

A entrada será feita em parceria com o grupo Albaltan. A intenção é construir uma presença permanente, com capacidade comercial, técnica e de implementação no país. «O objectivo é que a ITGest seja reconhecida não apenas como uma empresa tecnológica portuguesa presente no mercado, mas como um parceiro de transformação digital com capacidade local e compromisso de longo prazo com a Arábia Saudita».

Francisco Sá Pena © NB Clinic

Uma clínica portuguesa adaptada ao mercado saudita
A terceira abordagem é bastante diferente. A NB Clinic vê oportunidades na medicina estética, prevenção, wellness e longevidade, num mercado onde identifica consumidores interessados em tratamentos diferenciados, tecnologia médica e serviços personalizados. «Existe um consumidor cada vez mais informado, exigente e interessado não apenas em medicina estética, mas numa abordagem mais abrangente à saúde, à prevenção e à longevidade», afirma Francisco Sá Pena, fundador e CEO da NB Clinic.

A expansão, porém, não será feita através da simples reprodução do modelo português. «Não queremos impor um modelo europeu; queremos construir uma NB Clinic que faça sentido na Arábia Saudita, mas com o factor diferencial que pelo menos 90% da parte técnica é portuguesa».

Privacidade, hospitalidade, acompanhamento personalizado e uma experiência premium são algumas das características que a empresa considera particularmente relevantes naquele mercado. O formato da entrada ainda não está fechado: estão a ser avaliadas parcerias estratégicas e modelos que combinem marca, protocolos e experiência operacional da NB Clinic com conhecimento e capacidade local. A ambição, essa, é maior. «A Arábia Saudita não é, para nós, apenas uma oportunidade pontual de expansão. Pode tornar-se um dos mercados mais relevantes na estratégia internacional da NB Clinic e funcionar como uma plataforma importante para uma presença mais ampla no Médio Oriente».

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