A MEO anunciou a realização de uma demonstração «pioneira» em Portugal que integra a distribuição quântica de chaves (QKD, Quantum Key Distribution) com serviços de comunicação clássicos numa rede comercial de fibra óptica.
A experiência, feita em colaboração a Altice Labs e o Instituto de Telecomunicações (IT), consistiu numa videochamada encriptada transmitida através de uma ligação 50G-PON, ou seja, uma rede óptica passiva (Passive Optical Network – PON) que oferece velocidades de até 50 Gbps.
Segundo a MEO, a demonstração recorreu a um serviço de videoconferência para ilustrar a aplicação das tecnologias quânticas no reforço da segurança das comunicações. Cláudio Rodrigues, Head of Optical Devices and Components da Altice Labs, esclarece à businessIT as diferenças entre QKD e a criptografia pós-quântica (PQC): «Enquanto a PQC recorre a algoritmos matemáticos concebidos para resistir a futuros computadores quânticos, a QKD utiliza princípios da física quântica para gerar e distribuir chaves criptográficas. Consideramos que estas são tecnologias complementares e que a combinação de ambas poderá contribuir para arquitecturas de segurança mais robustas no futuro».
O responsável refere que o principal factor diferenciador da demonstração «foi a integração da QKD numa infraestrutura comercial de fibra já existente» e explica o por quê: «Conseguimos demonstrar a coexistência de QKD com serviços GPON, XGS-PON e 50G-PON, sem necessidade de uma rede óptica dedicada. A videochamada encriptada realizada sobre 50G-PON mostrou precisamente que é possível acrescentar uma camada adicional de segurança quântica a serviços de elevada capacidade numa rede real».
Cláudio Rodrigues salienta que a experiência realizada durante o Portugal Digital Summit ainda não é uma solução comercial, mas um primeiro passo nessa direcção: «Ainda será necessário realizar ensaios adicionais em diferentes condições de operação, aprofundar a integração com sistemas de gestão, segurança e autenticação e avaliar aspectos de escalabilidade e interoperabilidade. Nesta fase, não existe um calendário definido para uma disponibilização comercial. O foco está em continuar a testar a tecnologia, identificar os casos de utilização com maior valor acrescentado e avaliar a sua maturidade técnico-económica. Esta demonstração representa um passo importante na preparação das redes para os desafios de segurança do futuro».
Segurança reforçada
A evolução da computação quântica coloca novos desafios à segurança da informação, nomeadamente o risco conhecido como Harvest Now, Decrypt Later. De acordo com o Head of Optical Devices and Components da Altice Labs, este «é particularmente relevante para organizações que necessitam de proteger informação sensível durante muitos anos. Trata-se de informação que pode ser recolhida hoje e armazenada para uma eventual descodificação futura através de computadores quânticos».
O responsável indica que «nestes cenários, a QKD acrescenta uma camada de protecção especialmente resistente a evoluções futuras da capacidade computacional, uma vez que a segurança da distribuição das chaves se baseia em princípios físicos e não apenas em pressupostos matemáticos. Ainda assim, deverá fazer parte de uma estratégia de segurança por camadas, combinada com autenticação, criptografia pós-quântica e outros mecanismos de cibersegurança».
É por isso que «sectores como administração pública, defesa, infraestruturas críticas, serviços financeiros, saúde, indústria e investigação poderão ser dos primeiros a beneficiar deste tipo de tecnologia», acrescenta o responsável.
No entanto, «mais do que o sector em si, o principal critério é a criticidade e longevidade dos dados. A QKD poderá ser especialmente relevante em comunicações estratégicas e ligações críticas, funcionando como uma camada adicional de protecção integrada numa abordagem abrangente de cibersegurança», sublinha Cláudio Rodrigues.
Aposta para o futuro
A MEO refere que a parceria «reflecte um compromisso conjunto com o desenvolvimento de soluções avançadas para a segurança das telecomunicações e a preparação das redes para os desafios futuros». É por isso também uma aposta estratégica na inovação. Cláudio Rodrigues sublinha que a demonstração «mostra que a evolução das redes de telecomunicações não passa apenas pelo aumento da capacidade, mas também pelo reforço da segurança e da resiliência».
Por outro lado, o responsável realça que a «colaboração entre a MEO, a Altice Labs e o Instituto de Telecomunicações permitiram aproximar a investigação científica das condições reais de uma rede comercial, validando conceitos inovadores e identificando os desafios associados à sua futura adopção. Mais do que anunciar um produto comercial, esta demonstração evidencia a preparação do ecossistema tecnológico para um futuro em que redes multi-gigabit e segurança quântica poderão evoluir em conjunto».









