A inteligência artificial entrou numa fase desafiante: ninguém quer parecer cético e todos querem estar associados a ela. Fazer algo ou simplesmente ter a IA como prioridade dentro (e fora) da organização.
Durante anos, o maior receio das empresas era ficar para trás na transformação digital. Hoje, o medo é perder o momentum num mercado obcecado com IA. E quando a pressão para acompanhar uma tendência começa a pesar mais do que a utilidade prática da tecnologia, é normalmente sinal de que o entusiasmo começou a ultrapassar a racionalidade.
A IA já não funciona apenas como tecnologia. Funciona como narrativa económica, argumento de valorização e mecanismo de posicionamento. Em muitos setores, passou a ser tratada quase como uma commodity estratégica. Startups captam investimento antes de terem um modelo de negócio sustentável, empresas reposicionam software antigo como soluções inteligentes e relatórios financeiros passaram a tratar “estratégia de IA” quase como sinónimo automático de visão de futuro. Não é apenas inovação. É também gestão de perceção. E o mercado, por enquanto, continua a recompensá-la.
Historicamente, os momentos de maior aceleração tecnológica tendem a misturar inovação genuína com excesso especulativo. A internet nos anos 90 é provavelmente o exemplo mais óbvio. O erro não foi acreditar no potencial da internet; foi acreditar que qualquer empresa associada à internet teria inevitavelmente sucesso. Muitas desapareceram. A tecnologia ficou, transformou a economia e redefiniu setores inteiros. E é provável que a IA siga exatamente o mesmo padrão: uma tecnologia com impacto real, rodeada por níveis de entusiasmo que nem sempre correspondem à maturidade do mercado. A diferença vai estar entre quem entra na aventura e quem entra de forma governada.
Mas reduzir tudo isto a hype seria igualmente simplista, e quem o faz está a cometer o mesmo erro que critica. A IA está efetivamente a gerar valor real em múltiplos setores, e a capacidade de automatizar tarefas complexas, acelerar análise de dados, apoiar investigação científica ou otimizar operações já tem impacto direto e mensurável em produtividade e eficiência. O problema nunca foi a existência desse valor. Foi a velocidade com que o mercado passou a assumir que qualquer utilização de IA o produz automaticamente, independentemente do contexto, da maturidade ou da qualidade da implementação. Ou seja, começamos a ter a IA como a “bala de prata” para todos os desafios dentro das organizações, sejam eles tecnológicos ou funcionais.
Talvez por isso os sinais de euforia sejam cada vez mais difíceis de ignorar. Sam Altman, CEO da OpenAI, admitiu recentemente que o mercado poderá estar a entrar numa bolha de IA, descrevendo como “loucura” os níveis de investimento dirigidos a startups compostas por “três pessoas e uma ideia”. A observação é particularmente interessante (e reveladora!) porque vem precisamente de uma das figuras centrais desta transformação tecnológica, e talvez resuma melhor do que qualquer relatório financeiro o paradoxo atual: a IA pode ser simultaneamente uma das tecnologias mais relevantes das próximas décadas e um dos mercados mais expostos a especulação.
É aqui que começa verdadeiramente a diferença entre investimento e ilusão.
Há empresas a utilizar IA para resolver problemas concretos, reduzir fricção operacional e criar ganhos reais de eficiência, enquanto outras continuam apenas à procura de uma justificação suficientemente convincente para a tecnologia que já decidiram adotar.
No entanto, velocidade não é sinónimo de valor. Em muitos casos, a IA acelera processos sem melhorar qualidade ou capacidade de decisão, automatizando execução sem substituir pensamento crítico. É precisamente por isso que o modelo human in the loop continua a ser indispensável: não como limitação tecnológica, mas como mecanismo de controlo numa realidade onde eficiência aparente pode facilmente esconder complexidade. E quando isso acontece, a linha entre inovação útil e dependência tecnológica torna-se rapidamente mais ténue, sobretudo em organizações que confundem adoção rápida com maturidade operacional.
Mais cedo ou mais tarde, o entusiasmo vai (inevitavelmente!) estabilizar, e é nesse momento que as promessas deixam de ser suficientes e o mercado começa finalmente a exigir resultados concretos. Algumas organizações terão construído capacidade real, integração sustentável e vantagens operacionais mensuráveis. Outras terão apenas comprado linguagem nova para problemas antigos, desperdiçando o já referido momentum para fazer diferente, fazer melhor e reforçar a governance das suas operações.
Porque as bolhas tecnológicas raramente rebentam por falta de inovação, mas sim quando a narrativa deixa de ser suficiente para sustentar expectativas que já ninguém consegue justificar.









