O The Value Summit mostrou um canal que já não se contenta em vender tecnologia: quer discutir estratégia, serviço contínuo e criação de valor em torno dos dados, da segurança e da produtividade. Ao longo de uma manhã, fabricantes e parceiros do ecossistema V-Valley sentaram-se no auditório da Fundação Cupertino de Miranda, no Porto, para uma conversa sobre inteligência artificial, NIS2 e ‑pós-PRR. A mensagem foi particularmente transversal: quem continuar a ser apenas «box mover» arriscasse a ficar fora do jogo.
Na primeira mesa, dedicada a AI, dados, infra-estruturas e continuidade de negócio, ficou claro que a inteligência artificial não é um ponto de partida: é consequência directa da maturidade ds organizações em dados e infra-estruturas. E aqui o papel do canal é tudo menos marginal.
Do lado da Red Hat, Nassri Abokhalaf lembrou que muitos CIO portugueses continuam presos a legados «muitíssimo pesados», que consomem uma fatia significativa do orçamento e dificultam a adopção de abordagens cloud-native prontas para AI. «O primeiro desafio que encontramos é sempre o tudo ou nada», apontou, referindo-se à ambição de «dar o salto para o cloud-native e deixar tudo para trás» numa só vez. Em vez disso, defende projectos faseados, começando por «uma nova aplicação de negócio que já é cloud-native, ou Kubernetes enabled», que permita às equipas criar conhecimento interno, maturar competências e, só depois, ir transferindo workloads para arquitecturas mais modernas, reduzindo ao mesmo tempo o footprint de legado.
Para Nassri Abokhalaf, a oportunidade para o canal é tornar-se o «braço armado» das organizações, compensando a «dívida técnica» e a falta de visão holística sobre temas como containers, Kubernetes e AI. «As organizações que queiram dar o salto precisam de ter um espaço inicial onde vão criar conhecimento interno», afirmou, sublinhando que muitos clientes portugueses não conseguem reter talento e vão precisar de parceiros com capacidades técnicas e serviços recorrentes para operar soluções durante «5, 10, 15 anos».
Se a AI depende de dados, a Object First veio recordar que dados mal protegidos são um risco existencial, não apenas um problema de TI. Javier Eduardo Jaimes, representante da empresa, notou que persiste a ideia de que o «backup é seguro por definição», apesar do aumento de ataques de ransomware às infraestruturas de cópia de segurança. Na arquitectura que recomenda ao mercado, o pilar central é a imutabilidade «absoluta», testada por terceiros, para garantir que nem acessos privilegiados conseguem desmantelar as cópias. Mas o discurso não se fica pela tecnologia: «O principal é parar de vender caixas», afirmou, insistindo que os parceiros têm de vender «segurança, imutabilidade, velocidade e simplicidade» alinhadas com frameworks de segurança e com as necessidades reais dos clientes.
Do lado da Alcatel-Lucent Enterprise, Henrique Amaro reforçou que redes e comunicações são a base para qualquer ambição de AI ou transformação digital. E que a segurança não pode ser um add-on separado da infraestrutura. «A definição de rede é integrar a segurança como parte nativa, não como parte independente», defendeu, explicando que a gestão centralizada, a segmentação e micro-segmentação, e a automatização são essenciais para reduzir o erro humano e criar infraestruturas preparadas para novos serviços, incluindo IA aplicada à operação das redes. Para os parceiros, isso significa abandonar o papel de simples revendedores de hardware e assumirem-se como consultores que conhecem «de fio a pavio» a realidade dos clientes, os seus breakpoints e o estado dos dados, vendendo soluções integradas com planos de testes e disaster recovery, e não apenas equipamentos isolados.
A Veeam trouxe à mesa talvez o discurso mais directo sobre a forma como muitos clientes olham para a continuidade de negócio. «Se alguém comprar isto como um seguro, o primeiro erro está feito», avisou Ricardo Oliveira, lembrando que as soluções de data resiliency não são apólices para «cobrir custos» em caso de incidente, mas «ferramentas de continuidade do negócio» para garantir produtividade e minimizar downtime. Uma história recente com um cliente ilustrou bem o problema: perante a pergunta sobre se alguma vez tinham testado a recuperação dos backups, um técnico respondeu que «nunca» o fizera porque tinha medo que não funcionasse e de ter de assumir a decisão inicial de compra da solução. «Isto é absolutamente inaceitável», comentou Ricardo Oliveira, concluindo que o sector falhou quando vendeu «uma solução que nem sequer é capaz de testar se os malditos backups estão bem feitos», limpos de malware e consistentes do ponto de vista aplicacional.
Para a Veeam, o desafio já não é a cloud híbrida ou multicloud em si – «já não é sequer um tema do ponto de vista operacional» – mas sim o governance e a catalogação de dados dispersos por múltiplas localizações e workloads. Numa era em que agentes de IA vão aceder a silos de informação, a questão passa por saber «onde é que estão os dados obsoletos, redundantes, quem é que acede a cada um deles», e por tratar o AI como mais uma identidade com políticas de acesso específicas, em vez de abrir indiscriminadamente todos os dados à máquina.
No fecho desta primeira mesa, o conselho aos parceiros convergiu no ponto de terem de deixar de ser «box movers» e assumirem um papel consultivo, dominando tecnologias transversais e construindo equipas com competências estratégicas em AI, dados e continuidade de negócio. «Não tenham receio de ser consultores do cliente», desafiou Ricardo Oliveira, defendendo que os parceiros devem pegar nos projectos de IA «desde o momento zero», desde a classificação dos dados até ao desenho de agentes específicos, bem treinados e estritamente alinhados com outcomes de negócio.

NIS2 e redes: da caixa ao serviço recorrente
A segunda mesa trouxe para o palco um tema que já ninguém consegue ignorar: NIS2 deixou de ser uma discussão jurídica para se tornar uma pressão concreta sobre IT, operações e canal. A questão já não é se as organizações terão de se adaptar, mas em que velocidade o vão fazer — e que papel os parceiros querem ter nessa jornada.
Luis Gonzalez, da , resumiu bem a mudança de paradigma: «A própria rede é elemento de segurança». Em vez de configurações manuais complexas, com elevado risco de erro humano – responsáveis, segundo o próprio, por mais de 40% das falhas – o fabricante aposta em automatização e em redes capazes de se auto-proteger e recuperar, integrando-se‑ com aplicações de gestão e segurança, incluindo soluções da Microsoft. A ambição passa por ter um «único ponto em comum» de recepção de alarmes e gestão de eventos, com capacidade preditiva para identificar problemas futuros de capacidade ou CPU antes de provocarem falhas.
Do lado da Juniper, representada por Javier Flores, a resposta à falta de talento especializado em redes e segurança passa pelas redes self‑driving, alimentadas por telemetria avançada e AI, que identificam e resolvem problemas automaticamente. «A quantidade de técnicos que precisam de operar essa rede está a diminuir», explicou, defendendo que o objectivo não é «curar» pessoas, mas libertar equipas para actividades que acrescentam valor ao negócio, em vez de as manter a responder a queixas como «o Wi-Fi não funciona». Assim, «os problemas podem ser procurados por si mesmos, pela rede», rematou, ligando directamente automação, redução de custos operacionais e redes mais resilientes.
A Zyxel trouxe um olhar muito pragmático sobre a realidade das PME, tanto em Portugal como em Espanha. Gonzalo Echeverría reconheceu que muitas organizações continuam com práticas básicas: todos acedem a tudo, falta autenticação multifactor, o tráfego para a cloud não está encriptado, e a sensação de segurança limita-se a «ter tudo na cloud de Azure». Uma checklist mínima passa por Zero Trust, MFA, VPN bem configuradas, firewalls com alertas proactivos e integração com plataformas de gestão que permitam aos parceiros gerir ambientes de forma preventiva, em vez de reagir quando a CPU chega aos 90% e «já tem o problema». O diagnóstico é duro, mas abre espaço a negócio: «A oportunidade é enorme, porque há muitas empresas que não têm praticamente nada», afirmou, sublinhando que quem continuar focado em hardware puro «em dois anos não estará na sala».
A Microsoft, representada por Tiago Teixeira, reforçou que a NIS2 não pode ser dissociada da cloud e da identidade. Ferramentas como o Sentinel, combinadas com capacidades de monitorização e resposta orquestrada a incidentes, são centrais para cumprir prazos como as 24 horas para detecção, 48 para reporte e 72 para resolução que a directiva impõe. Ao mesmo tempo, soluções de controlo de identidades e de data loss prevention permitem cobrir uma parte significativa dos requisitos práticos, sobretudo para clientes sem equipas robustas. Mas Tiago Teixeira deixou um aviso claro ao canal: sem certificações técnicas em Security & Compliance, Modern Work e Azure, será difícil passar de «fornecedor de licenças» a verdadeiro trusted advisor em NIS2.
Produtividade digital, pós‑PRR e o valor dos dados
Na terceira mesa, o foco deslocou-se para a produtividade digital, colaboração e oportunidades de negócio no pós-PRR‑, com Adobe, Foxit, Mitel e Cohesity. Aqui, a discussão revelou um país onde a digitalização já deixou marcas estruturais, mas em que boa parte do potencial continua por concretizar.
Santiago Ruiz Aguire, da Adobe, começou por sublinhar o que já não volta atrás: «A digitalização dos processos críticos, tipo firma digital, rastreabilidade de documentos, colaboração em tempo real dos documentos, auditoria destes documentos, tudo isto já está estrutural». A colaboração distribuída – não apenas pelo teletrabalho, mas pela necessidade de trabalhar com múltiplos sistemas e entidades – e a expectativa dos utilizadores de que a relação com a administração pública seja tão rápida e confiável quanto com o sector privado também já fazem parte desse novo normal. Em Portugal, essa maturidade nota-se‑ em particular no governo central e local, na educação superior e na banca, mas a indústria e a saúde continuam a lidar com sistemas muito heterogéneos, onde ainda «resta muito por fazer».
O grande espaço de oportunidade, porém, está no redesenho de processos e na utilização efectiva dos dados. «Em muitos dos casos, o que se fez foi passar o papel para a parte digital, mas aí ficou», notou Santiago Ruiz Aguire. A informação contida em quantidades «ingentes» de documentos digitais continua pouco explorada, e o uso responsável da IA para encontrar, segmentar e analisar esses dados, aumentando a produtividade, ainda está «nos seus princípios». É precisamente aqui que acredita que os parceiros podem construir relações de longo prazo, ajudando a mapear processos, integrar soluções com ERP e CRM e combinar consultoria, integração e formação com licenças.
Miguel Cruz, da Foxit, reforçou a ideia de que é preciso sair da lógica do «PDF básico». Na sua visão, as empresas têm de olhar para a gestão documental e os workflows «de um ponto de vista de dados», utilizando ferramentas – incluindo IA para tradução e análise – para enriquecer a informação, eliminar trabalho manual repetitivo e devolver aos utilizadores finais «horas de tempo» para tarefas de maior valor. Em Portugal, a Foxit está a ganhar tracção sobretudo em PME, bem como em sectores documentalmente intensivos, como jurídico, construção e finanças, onde a adopção de novas ferramentas é mais ágil do que em grandes empresas.
No campo das comunicações unificadas e contact center, Rui Leitão, da Mitel, lembrou que o choque de 2020 obrigou as organizações a garantir, «quase de um dia para o outro», modelos de trabalho híbridos, mobilidade e acesso remoto às plataformas críticas. Desde então, a forma como os clientes encaram comunicações e colaboração mudou estruturalmente: a mobilidade é hoje «um factor principal», e o contact center tornou-‑se ferramenta essencial para medir satisfação, ajustar serviços e gerir a experiência do cliente. O desafio, agora, é convencer as organizações de que o investimento não pode ser visto como «despesa de projecto», mas como serviço contínuo, com necessidades permanentes de segurança, integração e melhoria contínua. «Cada vez mais há necessidade de integração no modelo de negócio do cliente», sublinhou, acrescentando que o parceiro, enquanto trusted advisor que conhece o dia-‑a-‑dia do cliente, é quem está melhor posicionado para fornecer estas soluções como serviço.
A Cohesity fechou o painel voltando ao tema dos dados, desta vez pelo prisma da protecção e da ciber-‑resiliência. Para André Feijóo, há duas mudanças estruturais visíveis: por um lado, «os dados como ponto central das empresas», com a procura de data scientists a provar que as organizações vêem nos dados um activo para operar, decidir e inovar; por outro, a percepção crescente de que ciberataques e perda de dados são problemas de continuidade de negócio, não apenas de IT. Mas o caminho está longe de concluído. André Feijóo aponta a fragmentação das ferramentas de backup, que reduz eficiência e aumenta a superfície de ataque, a «imaturidade no que é a ciber-resiliência‑ real» e a falta de visibilidade sobre onde estão os dados prioritários, se em cloud pública, SaaS ou on-premises, e como recuperá-los com rapidez, como os maiores desafios. Já‑ as plataformas unificadas, com múltiplos conectores e capacidades de data security posture management, são, na sua leitura, a base para evoluir, permitindo não só proteger melhor os dados, mas também, no limite, monetizá-los‑.









