Reportagem

Juniper Research: 2026 é o ano em que a IA vai começar a gerar valor

O Top 10 Emerging Tech Trends da empresa de consultoria e estudos de mercado revela as principais tendências tecnológicas para este ano, em que a IA ganha destaque, em diversas vertentes, e a resiliência da cloud vai ser uma das grandes áreas de aposta.

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O relatório anual da Juniper Research indica que 2026 vai ser marcado por investimentos em sistemas multiagente por parte das organizações, nomeadamente para transformar as comunicações e as funções de negócio, e que os early adopters serão aqueles que mais beneficiarão da tecnologia. No entanto, para permitir um maior nível de autonomia, esses agentes de IA devem ser treinados com o máximo possível de dados do mundo real.

Ricardo Martinho, presidente da IBM Portugal, destaca que «serão os sistemas e os agentes, e não os modelos, a definir a liderança de IA» e que «as empresas vão investir em agentes específicos para funções críticas e automação». O responsável indica como isto se irá realizar: «Iremos assistir à ascensão de “super agentes” transversais a todas as funções e canais. As organizações deverão orquestrar estas equipas de agentes com governança, gestão de identidades e auditorias robustas, para garantir transparência e confiança, assim como um ROI mensurável».

Por outro lado, Duarte Fernandes (CEO da KWAN) diz que, em 2026, «o debate deixa de ser “quem está a adoptar IA” e passa a ser “quem está a conseguir transformar a sua organização com IA”. A tecnologia, essa, já está amplamente disponível. O verdadeiro desafio está a revelar-se noutro plano: no desenho dos processos, das equipas e dos modelos de decisão». Para o responsável, uma das tendências identificadas pela Juniper Research, que ilustra bem esta mudança de fase, é «a consolidação dos sistemas multi-agente». Assim, «a IA começa a deixar de ser apenas uma ferramenta de apoio e passa a operar dentro dos próprios processos das empresas, através de agentes especializados e orientados a domínios específicos. O impacto mais relevante não é técnico, é organizacional. Estes sistemas obrigam as empresas a clarificar responsabilidades, redesenhar fluxos de decisão e repensar a colaboração entre pessoas e sistemas inteligentes. O verdadeiro valor não estará em ter mais agentes, mas em saber integrá-los de forma disciplinada no funcionamento da organização, com governação clara e accountability bem definida», avança.

Duarte Fernandes © KWAN

O mundo quântico
A consultora acredita que a criptografia pós-quântica vai também ser uma das áreas de evolução, com modelos híbridos que juntam sistemas clássicos com novos algoritmos resistentes a ataques quânticos. Ricardo Martinho explica que a tecnológica tem uma visão semelhante: «A IBM prevê que 2026 será o ano em que a computação quântica ultrapassa a clássica e reforça a importância de ter a segurança e a confiança como factores estratégicos. É urgente endereçar um cenário pós-quântico, seja através da criptografia em modelos híbridos ou da integração quântica com IA, por forma a mitigar os riscos crescentes e preparar as organizações para o cenário harvest now, decrypt later».

Outra das vertentes referidas pela Juniper é a crescente importância da computação neuromórfica, que imita a função dos neurónios e sinapses no cérebro humano, realizando tarefas de memória e processamento num único chip. Como resultado, acelera o tempo de processamento, eliminando a necessidade de transferir dados entre a memória e as unidades de processamento, o que contribui para a redução do consumo de energia e uma menor latência da IA. O responsável salienta que «a necessidade de inovação em hardware para suportar a IA em escala vai criar pressão no aumento do desempenho e na redução do custo. A resposta deverá ser o foco na eficiência, com arquitecturas optimizadas (ASICs, chiplets) e hardware especializado para cargas de trabalho de agentes».

A IA física
Segundo a Juniper Research, vão também existir progressos substanciais na inteligência artificial física, ou seja, na robótica humanóide: «Em 2026, esperamos que esses modelos de IA se concentrem em melhorar a precisão em tarefas específicas na área do fabrico. No entanto, o foco dos programadores e fabricantes de hardware deve mudar para a resolução de tarefas mais gerais para o sector de consumo».

O presidente da IBM corrobora esta previsão e refere que «apesar de os LLM continuarem dominantes, o retorno que se obtém da escalabilidade está a diminuir e a atingir o seu limite nos modelos tradicionais. A IA física e a robótica irão seguramente ganhar projecção, pois está a aumentar o interesse pela IA que consegue sentir, agir e aprender em ambientes físicos. Esta mudança irá exigir novas arquitecturas e integração com sensores e agentes, em que o open source ganha ainda mais peso para garantir interoperabilidade, evitando “lock-in” e acelerando a inovação em domínios como IA física e edge».

Ricardo Martinho © APDC | Vítor Gordo – Syncview

Cloud mais resiliente
O ano será ainda marcado pelo uso de microfluídica como solução de arrefecimento para chips de alto desempenho em data centers e da adopção de soluções multicloud para aumentar a resiliência e evitar interrupções de serviço. Ivo Ivanov, CEO da DE-CIX, indica que «à medida que as interrupções de serviço na cloud, as cargas de trabalho orientadas por IA e as implementações de edge computing convergem, a interligação passa de um aspecto secundário para um ponto crucial.

Em 2026, a capacidade de conexão com segurança e de forma integrada a ambientes cloud, edge computing e on-premises definirá quem poderá escalar a IA em tempo real, manter a soberania digital e construir ecossistemas digitais verdadeiramente resilientes». Por outro lado, Ricardo Martinho esclarece que as «infraestruturas multicloud e híbridas serão cada vez mais essenciais para a resiliência e soberania, reduzindo dependências, gerindo latência, assegurando a continuidade do negócio e mitigando interrupções e outros riscos».

Duarte Fernandes tem uma opinião em linha com as restantes e a tendência indicada pela Juniper, ou seja, vai existir um «foco crescente na resiliência das arquitecturas digitais e na adopção mais consciente de modelos multicloud». Isto porque «os incidentes recentes vieram expor um equívoco comum: cloud não é sinónimo automático de resiliência. Basta lembrar a falha prolongada da Amazon Web Services no final de 2025, que afectou durante horas serviços financeiros, plataformas de media e múltiplas operações empresariais a nível global».

É por isso que considera que «à medida que cargas de trabalho de IA se tornam cada vez mais centrais para a operação e para a tomada de decisão, a capacidade de isolar falhas, garantir continuidade e gerir dependências tecnológicas passa a ser uma preocupação de primeira linha. Mais que uma escolha de infra-estrutura, isto é uma decisão de desenho de risco e de governação».

Ivo Ivanov © DE-CIX

O ano dos agentes e do ROI
Ricardo Martinho resume que «2026 será marcado pelo fim do cepticismo à volta do ROI (retorno do investimento) da IA, pelo surgimento dos “super agentes” e pela afirmação dos modelos open source. A eficiência, resiliência e confiança passam a ser requisitos fundamentais para a adopção de IA em escala pelas empresas». Já Duarte Fernandes sublinha que as tendências identificadas pela empresa de consultoria convergem numa ideia: «A IA cria valor quando é tratada como parte integrante do sistema da empresa, não apenas tecnológico, mas também humano e organizacional. O ano de 2026 deverá marcar o momento em que fica claro que transformar com IA é, acima de tudo, um exercício de liderança e de desenho organizacional, e não apenas de adopção de tecnologia». Por seu lado, Ivo Ivanov explica que «as tendências tecnológicas da Juniper Research para 2026 vêm reforçar» o que a empresa previu para este ano: «a IA está a tornar-se agentiva, a infra-estrutura está a tornar-se distribuída e a resiliência é um imperativo estratégico».

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