A iniciativa da multinacional de origem alemã, que se realizou no campus de Carcavelos da Nova SBE, serviu para assinalar os 120 anos de presença no País. Sofia Tenreiro, CEO da Siemens Portugal, explicou a sua visão para o futuro: «O mundo é complexo, mas há duas coisas que são comuns para o resto das nossas vidas: as pessoas, já que, independentemente de haver agentes, robôs ou qualquer outra forma de criatura que nos ajude, e a tecnologia, que está cada vez mais presente nas nossas vidas diárias».
A responsável salientou que a Siemens é «uma verdadeira empresa tecnológica» e que está envolvida em projectos de infra-estruturas críticas, transportes, saúde, indústria», entre outros sectores. Em Portugal, o Tech Hub «tem vindo a concentrar-se em nove das onze tecnologias essenciais que foram « definidas a nível mundial pela empresa», acrescentou. Em seguida, profissionais do centro de competências tecnológicas e inovação da Siemens fizeram demonstrações ao vivo de três projectos desenvolvidos no País. O primeiro, ligado a gémeos digitais, combina o mundo real e o digital, aplicado numa fábrica em Singapura; outro, de realidade estendida para formação de colaboradores, usa realidade virtual, aumentada e mista para treino em ambientes industriais e pode ser usado «a qualquer momento, em qualquer lugar e num ambiente seguro»; e, por fim, o Digital Business Optimizer for Sustainability, disponível gratuitamente nos EUA, que permite às organizações calcular a pegada ecológica, iniciar a jornada de descarbonização, optimizar recursos e tornar-se mais sustentáveis.
Ter ou não ter medo da IA
Bernardo Caldas, director de data da Mollie, fez uma keynote dedicada ao impacto da inteligência artificial no mercado de trabalho. O responsável começou por dizer que as pessoas devem estar simultaneamente «entusiasmadas e assustadas» em relação a esta tecnologia e que a estratégia deve ser estar «preocupado», mas «agir e experimentar, pois é a única maneira de perceber o que esta pode trazer».
Bernardo Caldas afirmou que a IA «vai tirar empregos a pessoas que não a usam, mas também a pessoas que a usam», com especial impacto «no início da carreira». O director de data revelou os resultados de um estudo da Universidade de Stanford que mostra «uma queda de 13% no emprego para jovens entre 20 e 25 anos, apesar de uma economia em expansão», e de «9% em profissionais experientes em áreas com tarefas altamente repetitivas». No entanto, alertou que esse aumento do desemprego pode chegar a outras áreas e deu o exemplo do uso de IA generativa na programação, que já levou a «20% de redução no número de vagas para engenheiros de software em início de carreira».
Tirar proveito da tecnologia
O responsável fez uma analogia com a escolha de Pascal (que optou por acreditar em Deus por ser melhor estratégia do que não crer na sua existência) para ilustrar a decisão entre acreditar que a IA «terá um grande impacto no mundo» e adoptar a tecnologia, ou não fazer nada. Esta última hipótese «é a pior estratégia», sublinhou, pois corre-se o risco de «ficar obsoleto». Bernardo Caldas defendeu que «a única coisa em que nos devemos concentrar é que a IA é algo incrível», pois pode «aumentar os profissionais e torná-los mais eficientes, criativos e colaborativos», além de «prever riscos, especialmente se se estiver em posições de tomada de decisão».
O responsável aconselhou todos a usar a tecnologia para «criar coisas, tentar automatizar tarefas e ver até onde conseguem chegar», até porque «se não se fizer e não se treinar esse músculo, não se está a aprender, não se está pronto para o aumento de capacidades». No entanto, destacou ser importante «evitar a preguiça que o uso da IA pode trazer e continuar a usar o cérebro». Para o director de data, este é um momento único em que basta «ter um computador e Internet» para ter sucesso: «Nunca na história da humanidade tivemos tantas oportunidades de construir coisas sem precisarmos de permissão».
No final, deixou um aviso: «A escolha que todos temos nas nossas mãos é, em vez de entrar em pânico e pensar em quantos empregos serão destruídos, perceber como podemos aproveitar a IA para fazer coisas melhores, viver uma vida mais interessante e sentirmo-nos mais realizados.»
O lado bom e mau da inovação
O debate abordou os dois lados da inovação e ficou claro que a IA é um motor de eficiência, produtividade e até de sustentabilidade. João Nascimento Gomes, data & analytics lead da Siemens Portugal, salientou a «electrificação de frota» como uma das vantagens trazidas pela inovação, que permitiu a «redução das emissões», e disse que a inteligência artificial é uma ferramenta que será «o mais próximo de se ter superpoderes». Sublinhou ainda a importância desta tecnologia no processamento de informação e na tomada de decisões, referindo que a IA «afecta cada pessoa de maneira diferente». Assim, há «necessidade de ter controlos e equilíbrios para alinhar os interesses entre os stakeholders».
Tiago Mayer, launch manager da Volkswagen AG, revelou que só a IA e a inovação ajudaram a resolver «o desafio de desenvolver um novo carro eléctrico em três anos», mas que a tecnologia traz vulnerabilidades de segurança e que é essencial estar ciente desse potencial perigo: «Estando online, há sempre a possibilidade de alguém entrar no veículo. Temos de saber quais são os riscos. Precisamos de legislação e regras para lidar com isso, mas também de termos a mente suficientemente aberta para vermos o futuro e não bloquearmos a inovação».
José Roque, energy segment lead na EY Portugal, argumentou que não existem «silver bullets», dando o exemplo da energia nuclear, que permitiu «a bomba atómica, mas também é uma fonte de energia estável e de baixas emissões de carbono». Sublinhou o papel da IA na gestão da rede eléctrica, que possibilita lidar com a «crescente complexidade da coordenação das fontes de energia renováveis» e «manter a estabilidade da rede». O responsável destacou ainda os riscos da tecnologia em infra-estruturas críticas, como «as alucinações dos modelos», e a necessidade de «salvaguardas para evitar que isso cause problemas». José Roque realçou que é «preciso aproveitar o poder da inovação, mas também ser um pouco cauteloso» no uso da tecnologia. No final, ficou patente que é necessário que a inovação sirva as pessoas e o planeta — e seja usada para o bem.






