NacionalNotícias

Tecnologia industrial portuguesa sai da “incubadora”

Na Feira Internacional do Porto, durante dois dias, mais de cem empresas mostraram o que a indústria portuguesa já consegue fazer. E o que ainda não sabe de que precisa.

© EXPONOR

Numa fábrica de carne em Portugal, um técnico olha para o ecrã e vê, em tempo real, onde está cada produto, em que fase do processo se encontra e se há algum desvio face ao planeado. Não há papel. Não há telefonemas a perguntar onde foi parar determinado lote. Os erros de expedição, que antes chegavam a acontecer regularmente, caíram 94%. A eficiência produtiva subiu 21%. Estes são os números da Comave, um dos clientes da Brainr, uma empresa de Leiria, fundada em 2019, com 32 pessoas e 11 milhões de euros de financiamento captados, que desenvolveu um software de gestão de produção alimentado por inteligência artificial e afirma gerir já mais de 30% da produção de carne em Portugal.

A Brainr é uma das 14 startups portuguesas presentes na 360 Tech Industry, o certame da Exponor, em Matosinhos, dedicado às tecnologias de produção industrial. Mas é também, de certa forma, um símbolo do que esta feira tenta mostrar: que a transição digital da indústria não é uma abstracção de consultora, mas algo que já está a acontecer, em fábricas reais, com resultados mensuráveis.

A edição deste ano reuniu mais de cem empresas, entre fabricantes de equipamento, fornecedores de automação e robótica, integradores de sistemas, universidades e centros de investigação. Na última edição, passaram pela Feira Internacional do Porto mais de cinco mil visitantes, com perfis que variaram entre engenheiros de produção, gestores de operações, responsáveis de manutenção, decisores de investimento.

A magia do HubTech
É num espaço específico dentro da feira, o chamado HubTech, que se concentra o que há de mais novo. Ali estão empresas que, na maioria dos casos, ainda não completaram dez anos de existência, mas que estão a trabalhar problemas muito concretos da indústria, o tipo de problemas que quem trabalha no chão de fábrica conhece bem e que raramente aparecem nas conferências sobre o futuro do trabalho.

Um desses problemas é simples de enunciar: quando uma máquina avaria e é preciso fazer uma reparação, o técnico pode gastar entre 20 e 60 minutos apenas à procura do manual certo, do histórico da intervenção anterior, do esquema eléctrico actualizado. É tempo perdido, e em ambiente industrial, tempo perdido tem custo directo. A N.0 Tecnologia, uma startup luso-brasileira incubada na SanjoTec, desenvolveu uma plataforma, denominada AI-Doc, que tenta resolver precisamente isso. O técnico aproxima o telemóvel de uma etiqueta QR Code afixada na máquina, faz a pergunta em linguagem corrente, e o sistema devolve a resposta com base em manuais, histórico e relatórios anteriores. A empresa estima que a redução no tempo de pesquisa de informação pode chegar aos 70%.

Outro problema, menos visível mas com impacto nos números de absentismo das empresas, são as lesões musculoesqueléticas. São apontadas pelos especialistas como a principal causa de baixas na indústria e as soluções existentes para reduzir o esforço físico no manuseamento de peças e materiais são, muitas vezes, demasiado pesadas ou incompatíveis com ambientes exigentes, como as chamadas Clean Rooms ou zonas electrostaticamente protegidas. A Gomec, outra empresa portuguesa presente na feira, produz um elevador ergonómico modular que tenta colmatar essa lacuna, usando actuação electromecânica e baterias de troca rápida que garantem operação contínua sem tempo de paragem.

Há também a questão das peças obsoletas. Quando um equipamento industrial fica sem peça de substituição, seja porque o fabricante descontinuou o componente ou porque a máquina tem décadas, a única alternativa costuma ser substituir o equipamento inteiro. A Bravo, incubada no Instituto Superior Técnico, combina scanners de alta precisão, impressão 3D e inteligência artificial para recriar esses componentes a partir de uma fotografia ou de um ficheiro CAD, sem necessidade de moldes. Já tem mais de 70 projectos concluídos em sectores como a aviação, o naval e a indústria em geral.

Nem todas as empresas presentes trabalham ao nível do componente ou da máquina individual. Algumas olham para o edifício inteiro, ou para a fábrica como um sistema. É o caso da Planta Smart Homes, criada por Gonçalo Melo, que desenvolveu o PlantaOS, descrito como um sistema operativo para espaços físicos. A ideia é integrar sensores, dados e actuadores para gerir energia, climatização, fluxos de pessoas e processos operacionais de forma autónoma. Um caso de estudo referenciado pela empresa é a Horse Aveiro, unidade do Grupo Renault que produz motores eléctricos para veículos híbridos e exporta para mais de 100 países, onde a implementação do sistema terá gerado poupanças de 18% em energia e 27% em custos de manutenção.

Para Diogo Barbosa, director-geral da EXPONOR, o que a feira espelha é algo mais amplo do que o catálogo de produtos em exposição. «É muito encorajador perceber como Portugal está na vanguarda em alguns sectores tecnológicos». O executivo descreveu o certame como «uma plataforma de lançamento, para uns, e de consolidação, para outros, dando suporte à modernização e crescimento empresarial do cluster português das tecnologias produtivas».

Deixe um comentário