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Portugal acelera na inteligência artificial, mas fosso global aprofunda-se

A adopção de ferramentas de inteligência artificial em Portugal disparou em apenas dois anos, colocando o país numa trajectória de crescimento acelerado num mundo marcado por assimetrias cada vez mais evidentes.

Steve Johnson/Unsplash

Portugal passou de 10% de adopção de ferramentas de inteligência artificial em 2023 para 27% em 2024 e atingiu 55% em 2025. No mesmo período, os downloads de aplicações de IA cresceram de 1,0 milhão para 2,9 milhões e depois para 5,9 milhões, registando um aumento homólogo de 104% entre 2024 e 2025. Os dados constam do estudo “AI Adoption Index 2025”, da Cybernews, que analisou os downloads das cem aplicações de IA mais populares em 64 países, cruzando esses números com a dimensão da população de cada mercado para estimar taxas de adopção.

A fotografia global traçada pela Cybernews aponta para uma média de adopção de 25%, mas com diferenças significativas entre países. «A adopção média é de 25%, mas varia amplamente, de 66% (Singapura) a 7% (Venezuela, Polónia e Nigéria)», refere o estudo. Entre os vinte países com maior adopção, nove são europeus, sete asiáticos, dois da Oceânia, um da América do Sul (Chile) e um da América do Norte (Canadá). Singapura lidera este índice da Cybernews com 66%, seguida do Chile (60%) e dos Emirados Árabes Unidos (56%). No caso de Singapura, a adopção subiu de 24% em 2023 para 66% em 2025, evolução que o relatório associa à introdução precoce de uma Estratégia Nacional de IA em 2019, com integração da tecnologia na educação e na saúde. O Chile é classificado como «pioneiro» em maturidade de IA na América Latina, segundo o Latin American Artificial Intelligence Index 2025 citado no documento, enquanto os Emirados Árabes Unidos são apontados como um dos países com maior «previsão estratégica e prontidão» em matéria de IA.

Índia lidera em downloads
O estudo chama ainda a atenção para a diferença entre volume absoluto de downloads e taxa de penetração. A Índia lidera em downloads em 2025, com 162,5 milhões, mas apresenta apenas 11% de adopção, ocupando a 61.ª posição. Os Estados Unidos, apesar de registarem 139,7 milhões de downloads, figuram apenas na 28.ª posição em termos de adopção, com 41%. «Há uma enorme diferença entre os países com maiores volumes de downloads e aqueles com maiores taxas de penetração», assinala o relatório.
Segundo os analistas da Cybernews, existe «uma relação, até certo ponto, entre o PIB per capita e a adopção de IA». Os dez países com maior adopção apresentam uma média de 55% e um PIB per capita médio de 42.327 dólares, enquanto os dez últimos registam 13% de adopção e 11.428 dólares. Ainda assim, o documento ressalva que, quando condições básicas como electricidade, dispositivos e acesso à internet estão asseguradas, «as diferenças na adopção são mais bem explicadas por factores como literacia digital, língua, estrutura demográfica, clima regulatório e normalização do uso de IA nos locais de trabalho».

Portugal faz parte, portanto, desta tendência global mais alargada de aceleração da adopção de IA. A leitura ganha uma segunda dimensão quando cruzada com o relatório ‘Global AI Adoption in 2025 – A Widening Digital Divide’, publicado pelo Microsoft AI Economy Institute, que analisa a difusão da IA generativa na segunda metade de 2025.De acordo com o sumário executivo, a adopção global de IA generativa aumentou 1,2 pontos percentuais na segunda metade de 2025 face à primeira, atingindo 16,3% da população mundial. «Hoje, cerca de uma em cada seis pessoas utiliza IA para aprender, trabalhar ou resolver problemas», lê-se no documento.

Mas há um senão: este crescimento está longe de ser igual para todos. «A adopção no Norte Global cresceu quase duas vezes mais depressa do que no Sul Global», elevando a taxa para 24,7% na população em idade activa no Norte, face a 14,1% no Sul. O relatório refere que a diferença entre as duas regiões aumentou de 9,8 para 10,6 pontos percentuais entre o primeiro e o segundo semestre de 2025.
A metodologia utilizada pela Microsoft mede a difusão como «a percentagem de pessoas que utilizaram um produto de IA generativa durante o período em análise», com base em telemetria agregada e anonimizada, ajustada por quotas de sistema operativo, penetração da internet e população de cada país.

Emirados Árabes Unidos e Singapura no topo
Tal como no estudo da Cybernews, os Emirados Árabes Unidos e Singapura surgem no topo. No segundo semestre de 2025, os Emirados atingem 64% de utilização na população em idade activa, reforçando a liderança, enquanto Singapura regista 60,9%. O relatório destaca ainda a Coreia do Sul como o país com maior subida no período, passando da 25.ª para a 18.ª posição, com 30,7% de difusão. Segundo o documento, este avanço foi impulsionado por políticas públicas, melhorias no desempenho dos modelos em língua coreana e funcionalidades orientadas para o consumidor. «Um desenvolvimento que remodelou o panorama global em 2025 foi a rápida ascensão da DeepSeek, uma plataforma de IA de código aberto que ganhou força significativa em mercados há muito mal atendidos pelos fornecedores tradicionais. Ao lançar o seu modelo sob uma licença MIT de código aberto e oferecer um chatbot totalmente gratuito, a DeepSeek removeu as barreiras financeiras e técnicas que limitavam o acesso à IA avançada. Não é de surpreender que a sua maior adoção tenha ocorrido na China, Rússia, Irão, Cuba e Bielorrússia. Mas talvez ainda mais notável seja a crescente popularidade da DeepSeek em toda a África, onde é auxiliada por promoção estratégica e parcerias com empresas como a Huawei», explora o documento da Microsoft.

No anexo estatístico, Portugal apresenta uma taxa de difusão de 24,2% na segunda metade de 2025, acima dos 22,4% registados na primeira metade do ano, o que corresponde a um aumento de 1,8 pontos percentuais. Quando olhamos para os dois relatórios em conjunto, vemos duas dimensões que se complementam: por um lado, a aceleração expressiva de mercados nacionais como o português no universo de downloads e penetração de aplicações; por outro, um mapa mundial da adopção onde alguns países se destacam claramente à frente e um fosso crescente entre regiões.

Enquanto a Cybernews sublinha que «a adopção é mais elevada em nações pequenas, digitalmente avançadas e ágeis, com estratégias nacionais de IA implementadas cedo», a Microsoft conclui que «o mundo está a adoptar a IA a um ritmo notável», mesmo que a divisão entre regiões líderes e regiões atrasadas continue a crescer.

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