Reportagem

Rosen Dimoy: o investigador que vê os Açores como um laboratório vivo

A ideia é transformar a ilha Terceira num laboratório vivo para soluções geoespaciais: Portugal é um lugar onde a ciência «pode avançar com impacto real»

© Phasegrowth

Rosen Dimov, CEO da Phasegrowth, leva na bagagem um percurso académico e empresarial que atravessa a Europa e os Estados Unidos, mas encontrou nos Açores algo que, segundo descreve, raramente vê reunido num único território: abertura, potencial tecnológico por explorar e uma geografia ideal para testar soluções de impacto global. Este professor associado da Universidade Técnica de Viena, investidor com mais de duas dezenas de participações em startups e gestor de inovação numa spin-off de tecnologia automóvel, explica que o arquipélago se tornou mais do que um ponto no mapa, tornou-se uma ambição de longo prazo.

Nos últimos meses, dedicou-se à criação da iniciativa Herança Atlântica, sediada na ilha Terceira. O CEO descreve o processo como natural, quase inevitável, à medida que a região ganhava significado na sua visão estratégica. «Acho que é uma área geralmente vista como ligada ao turismo e talvez à defesa, e como ponto entre a Europa e os EUA. Mas, para mim, tem um significado mais profundo», afirma. A explicação assenta em duas ideias: a atitude das pessoas e a possibilidade de experimentação tecnológica.

Segundo o responsável, os Açores oferecem um ambiente raro: «As pessoas são muito simpáticas e abertas a aprender e a fazer muitas coisas». Mas é sobretudo o potencial no domínio dos dados geoespaciais que mais o entusiasma. Rosen Dimov integra a direcção da Space for Geo, uma aliança que junta indústria e universidades no domínio do espaço, e quer transpor essa experiência para o arquipélago: «Estamos a tentar usar esta experiência na Terceira para diferentes soluções relacionadas com desenvolvimento sustentável, crescimento rural, melhor agricultura, garantir que não há metais tóxicos no solo, assegurar bons corredores para baleias e golfinhos e, com as alterações climáticas, perceber o que está a acontecer». O trabalho ainda está numa fase inicial, mas o investigador insiste que o ambiente local é propício à inovação: «As pessoas são muito prestáveis».

A ambição, contudo, esbarra num obstáculo concreto: não há ainda equipa. «Ainda não tenho pessoas a trabalhar comigo. E isso tem sido um desafio», admite. O CEO explica que tem colaborado com a incubadora Startup Angra, que lhe indicou potenciais candidatos, mas que a realidade de uma ilha com um mercado laboral limitado obriga a um esforço adicional de formação e captação. A solução que desenha passa pela academia: «Vamos tentar envolver mais estudantes da universidade. Será uma oportunidade para ganharem experiência. Depois, se decidirem continuar como empregados ou até fundadores, essa oportunidade será dada».

A burocracia que trava o investimento internacional
Rosen Dimov tem entidades constituídas em vários países, incluindo uma incubadora, uma ONG e uma empresa na Estónia. Isso permite-lhe comparar ecossistemas. «O primeiro passo é criar a empresa. Não me importo de ir a Portugal, mas muitas coisas têm de ser feitas presencialmente», descreve, sublinhando que esta exigência física afasta investidores internacionais. Na sua opinião, «se Portugal e os Açores querem atrair mais ideias e capital internacionais, o primeiro passo é digitalizar este processo. Isto é muito, muito importante».

O CEO sublinha que o atendimento é acolhedor («fui a um escritório de finanças super simpático e as pessoas eram encantadoras», conta), mas não chega. A falta de digitalização prolonga processos, cria barreiras de acesso e impede a fluidez que empreendedores habituados a operar em várias geografias consideram essencial. A cultura empreendedora surge como outro ponto a melhorar. «Somos apresentados a diferentes instituições e organizações, mas nota-se alguma resistência. ‘Isto é algo novo. Há aqui um estrangeiro a fazer isto’», comenta, recordando a desconfiança inicial. E reproduz a pergunta implícita que sentiu: «‘O que é que ele quer de nós?’ ‘Quer dinheiro?’ Não, não quero dinheiro. Quero validar a solução».

A resistência existe, admite, mas pode ser ultrapassada com diálogo e tempo. «Quando se fala com as pessoas, cria-se confiança». Ainda assim, compara com mercados mais ousados, como os EUA, onde «são mais propensos ao risco e dizem: vamos fazer já». No entanto, o empreendedor insiste que, apesar de poder fazer negócios em qualquer outro lugar, Portugal é especial pelas pessoas e pela Natureza. «Só depois, talvez, vem o custo de vida».

 

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