Entrevista

‘Fake news’ na Inteligência Artificial?

Adel Rouz, CEO dos laboratórios Fujitsu na Europa, falou-nos do poder da co-criação. E de Inteligência Artificial. Pensou em voz alta, deixou questões no ar e acabou a fazer-nos perguntas, às quais fomos tentando responder. ‘Fake news’ na Inteligência Artificial? Exactamente. Mas como detectamos que são falsas?

Qual é o principal foco dos laboratórios Fujitsu para os próximos dois anos? 

Nos próximos dois anos vamos focar-nos em como a nossa tecnologia de ponta e inovação vai apresentar soluções, não só para problemas sociais, mas também para desenvolver e implementar essas soluções com os clientes e parceiros através de programas de co-criação. 

Especificamente em que tipo de tecnologias ou áreas? 

Na área da Inteligência Artificial, por exemplo. Queremos que passe a ser amplamente usada na área da produção, dos transportes, da saúde e das finanças. Estes são os mercados verticais nos quais estamos focados. Estamos a comunicar bem, porque os clientes já vêm ter connosco para lhes solucionarmos problemas específicos destes sectores. 

Pode dar-me um exemplo.

Manutenção de estradas ou gestão de infra-estruturas em geral. Antes, as empresas não pensavam na Fujitsu para fazer isto. Agora já pensam, já vêm ter connosco.

Já acompanhamos a Fujitsu há algum tempo, sabemos que são agora efectivamente globais e que “lutavam” precisamente por esse reconhecimento da marca. Isso quer dizer que já o conseguiram? O que mudou no conceito? 

O que mudou foi que a Fujitsu se tornou parceiro de co-criação digital. E essa co-criação não é apenas uma frase “bonita”. Desenvolvemos e criamos soluções para a sociedade, o ser humano está no centro de toda a nossa actividade, de toda a nossa estratégia.
E mesmo no laboratório, quando falamos de tecnologias de ponta, questionamos a sua utilização. Em que problemas nos vamos focar? Que problemas vamos resolver? Ao invés de ser uma investigação ou pesquisa movida ou impulsionada pela tecnologia, é centrada em soluções de negócio ou serviços. 

Qual o nível de comprometimento que a Fujitsu tem com a Inteligência Artificial que falávamos há pouco? Que investimento estão a fazer?

Dou vários exemplos. Em 2015, anunciamos novos laboratórios em Madrid. Em 2016, anunciámos um enorme investimento em França num centro de excelência. E ainda vamos anunciar mais investimentos… 

… que pelo seu sorriso, presumo não me vai revelar…

Definitivamente, ainda não vou revelar. Mas repare, estamos a investir há bastantes anos em Inteligência Artificial e isso levou a novas formas de pensar. Porque quando falamos de IA aplicada ao negócio, é diferente do negócio tradicional. Vou tentar explicar melhor: no negócio tradicional, se desenharmos um produto ou uma solução, podemos vendê-lo a qualquer pessoa. No entanto, os negócios baseados em Inteligência Artificial são diferentes para cada cliente. É preciso treinar a aprendizagem de máquina, o algoritmo. 

Mas isso tem de levar a novos modelos de negócio, ou não? 

Claro que tem. E é por isso que a co-criação é fundamental. Sim, podemos criar, podemos inovar, podemos fazer negócio, mas para o negócio baseado em Inteligência Artificial é diferente. O modelo de negócio tem de ser distinto, os serviços não podem ser os mesmos e até as próprias soluções podem ter de ser diferentes.  

Sentem que têm tudo o que a indústria precisa, em termos de soluções, ou a indústria ainda tem necessidades por preencher? 

Não temos tudo o que a indústria necessita. Porque quando falamos em Inteligência Artificial, por defeito as pessoas pensam em IA de comunicação máquina-a-máquina. Ou seja, pensam em computadores com IA.
Mas se colocarmos o factor humano em tudo isso, quer dizer que estamos a falar de comunicação computadores-humanos. A Inteligência Artificial não vai poder tratar o humano como mais um computador. O humano tem problemas éticos, legais e outros elementos não computacionais. O computador tem, por isso, de entender todos os desafios relacionados com os humanos para apresentar as suas decisões de Inteligência Artificial. Para fazer as suas recomendações. 

Deixe-me ver se entendi. Há que “humanizar” a Inteligência Artificial? 

Repare: quando estamos a falar de Inteligência Artificial aplicada à saúde, pode parecer fácil, e em alguns campos, até o é. O problema é que há variáveis que têm de ser levadas em conta. O enquadramento social do paciente, por exemplo. Há muita informação que tem de ser levada em consideração, sobretudo se falarmos em saúde mental. Esses são os desafios.

Hoje, basicamente falamos de novas tecnologias ou de tecnologias já existentes aplicadas a novos conceitos? 

Dou-lhe um exemplo em forma de pergunta. Conhece o conceito de ‘Explainable Artificial Intelligence’ [NR: Inteligência Artificial Explicável]? 

Sim, já me deparei com ele, mas poucas vezes. Se não estou em erro, é a IA que permite precisamente aos humanos entenderam e confiarem nas acções baseadas em Inteligência Artificial… 

Sim. É sabido que o Trump é muito popular no Texas, certo? E na Califórnia, será que é também popular? A maioria das pessoas diria que não. Então e se a Inteligência Artificial lhe dissesse que o Trump era popular na Califórnia, o que diria? Provavelmente que está errada. Então temos que começar a falar de IA segura. Repare que não estou a dizer IA para a segurança. Estou a dizer IA segura. Temos de ter a certeza que a mensagem ou o comportamento da Inteligência Artificial é correcta, é segura.  

Mas então já estamos a falar de fake news’ na Inteligência Artificial? 

Exactamente. Mas como detectamos que são falsas? Criar ‘fake’ IA é fácil. Mas como detectamos e validamos que é falso? Isto é algo que ainda não está disponível. Estou a pensar alto… da próxima vez que me entrevistar, pergunte-me sobre a IA segura, quem sabe já terei uma resposta. Porque isto é muito importante se falarmos em Inteligência Artificial para efeitos sociais. Máquina-a-máquina é simples, mas quando colocamos na equação o factor humano e social as coisas complicam. 

São uma empresa de TIC. Sabemos, por isso, que para a área da saúde, trabalham com médicos. Para a área financeira, com financeiros. Mas para esta área, com quem trabalham? 

Com professores, com inovadores sociais, com especialistas em ética… E é por isso, uma vez mais, que a co-criação é fundamental. 

Isto vai-vos manter ocupados… 

… pelo menos durante os próximos dois anos. 

Eu ia perguntar o que vem a seguir, mas agora nem se se deva… 

Blockchain. Mas se falarmos em blockchain sem fronteiras, já é algo interessante, desafiante. A blockchain foi inicialmente criada para transações financeiras, para negociações contratuais. Mas podemos usar essa tecnologia para coisas diferentes, podemos trazer inovação adicional à blockchain. Vai ser interessante. 

O papel dos laboratórios Fujitsu tem vindo a alterar-se nos últimos anos? 

Tem. E muito. Antes, o nosso departamento de venda, comercial e relações públicas, dizia-nos: «Mostrem-nos o que têm, queremos mostrar aos clientes o que temos para vender». Mas hoje, não. Hoje, os clientes apresentam-nos o problema e, juntos, tentamos encontrar uma solução. Pode ser uma nova tecnologia, uma inovação. Não quer dizer que tudo seja desenvolvido de raiz. Muitas vezes é “só” preciso adaptar extensões de inovações. 

Susana Marvão
Jornalista especializada em TIC desde 2000, é fã incondicional de todo o tipo de super-heróis e da saga Star Wars. É apaixonada pelo impacto que as tecnologias têm nas empresas.