Reportagem

Computação quântica ainda está longe de ter aplicação real nas empresas

O IPAM: Marketing Business School, organizou no seu campus em Lisboa, uma conferência para desmistificar a computação quântica e apresentar casos de uso empresariais da tecnologia. Ficou claro que esta “revolução” ainda está longe de conseguir trazer retorno às organizações.

Mário Caldeira (ISEG/Deloitte), Francisco Sousa Pinto(VdA), Yasser Omar (IST/PQI) e Ricardo Abreu (IPAM) © IPAM

O evento ‘O impacto das tecnologias quânticas nos negócios’ contou com a keynote de Yasser Omar, professor do Instituto Superior Técnico (IST) e presidente do Portuguese Quantum Institute (PQI), que explicou que a principal diferença entre a física clássica e a quântica é a escala, já que a primeira trata de «objectos macroscópicos» e a segunda de «objectos microscópicos como moléculas, átomos e fotões». O docente salientou que a física quântica está assente no «Princípio da Sobreposição», em que pode existir 0 e 1 em simultâneo e no «Princípio da Observação» em que «observar o sistema altera o seu estado», acrescentando uma componente de imprevisibilidade e em que tudo «é puramente aleatório».

Yasser Omar disse que o que «é novo e revolucionário é usar sistemas quânticos, que estão sujeitos a estas leis, para codificar a informação». Assim, «a unidade fundamental da informação, o qubit, que é mais rica, traz novas formas de processar, transmitir e detectar informação», acrescentou.

Três vectores de utilização
O professor do IST revelou que as tecnologias quânticas vão permitir «construir computadores muito mais rápidos para resolver problemas da sociedade»; «ter comunicações com níveis de privacidade melhores», já que hoje esta «é assente na lentidão dos supercomputadores clássicos», ou seja, no facto de estes demorarem milhões de anos a decifrar a criptografia, e «medições mais precisas através de sensores quânticos» que podem ser usados, por exemplo, na imagiologia. Por outro lado, Yasser Omar falou ainda da vantagem da «eficiência energética» dos computadores quânticos, mas alertou que o hardware quântico «é ainda embrionário». No entanto, salvaguardou que já foram atingidos alguns marcos históricos como o «processador quântico de 53 qubits» da Google, em 2019, que conseguiu «resolver um problema matemático académico mais rápido (um dia) do que o melhor supercomputador clássico», que se estima demoraria dez mil anos a resolvê-lo.

A estratégia europeia
O presidente do PQI explicou que estas são «sobretudo tecnologias de soberania, com muita aplicação à defesa» e que por isso a Comissão Europeia lançou um programa com o objectivo «de investir mil milhões a nível de toda a União Europeia durante esta década» e que já vai em «onze mil milhões», o que demonstra a aposta que tem sido feita no domínio quântico. Mas alertou que a China e os EUA estão também a investir fortemente nesta área.

O responsável falou ainda da «Estratégia Quantum Europe» que assenta em cinco pilares: «investigação e desenvolvimento, infraestrutura, ecossistema, formação e o uso em defesa». Sobre o ecossistema, o docente referiu que isto quer dizer «industrialização das tecnologias quânticas» e, por conseguinte, «fazer o scale-up das startups europeias e de toda a cadeia de abastecimento», mencionando o sucesso da Entangled Space (N10GLED), a primeira startup quântica portuguesa. Por último, Yasser Omar falou do Quantum Act, «um regulamento que deverá ser publicado até meados de 2028 com impacto em tod

os os Estados-Membros» e que tem como «objectivo que a Europa seja um dos líderes globais nesta área».
Em Portugal, o Portuguese Quantum Institute, fundado pelo IST, o Instituto Português de Qualidade, a Deloitte e a Vieira da Almeida, «trabalham em cinco dimensões»: investigação, inovação, políticas públicas, educação e divulgação.

O desafio da segurança
Mário Caldeira, associate partner da Deloitte e professor catedrático no ISEG, explicou que os «computadores quânticos não vão substituir os computadores clássicos» e que a principal área de aplicação dos mesmos será na «factorização», a base da criptografia». O responsável sublinhou que os computadores quânticos «que existem são protótipos que funcionam, mas que ainda não têm um desempenho que tenha impacto significativo no mundo real». No entanto, «dentro de alguns anos, um mais potente do que os que existem actualmente poderá vir a ter um impacto muito significativo e quebrar as chaves de encriptação que se usam hoje para fazer as comunicações de forma segura e guardar dados».

O responsável falou dos ataques «harvest now, decrypt later», em que os criminosos «guardam aquilo que está encriptado e que não se consegue descodificar, mas que daqui a alguns anos com um computador quântico já será possível». O docente considera que este «é um risco real» que pode ter «maior ou menor impacto» dependendo dos dados e do tempo decorrido, já que «alguns dados perdem validade e outros não» com os anos.

Além disso, Mário Caldeira indicou que há duas soluções para proteger as comunicações e a informação: uma é «quantum key distribution, que é o envio da chave de encriptação por fotões polarizados ou entrelaçados, ou outro tipo de tecnologia semelhante, garantindo a segurança dos dados». Esta é ainda uma opção «cara e que tem limitações de distância de cerca de cento e poucos quilómetros», mas que «a China já consegue fazer por satélite a distância de milhares de quilómetros». A outra alternativa é a criptografia pós-quântica, que usa algoritmos mais complexos que permitem proteger a informação contra computadores quânticos».

Casos de uso incipientes
Relativamente às organizações, Mário Caldeira afirmou que «devem acompanhar a evolução da tecnologia, desenvolver conhecimento interno, criar roadmaps tendo em consideração o seu impacto potencial, pensar na protecção contra-ataques, nomeadamente identificando activos e tendo um plano de migração para a criptografia pós-quântica, e pensar em use cases que se adequem» à realidade do negócio.

O responsável referiu que existem já diversos casos de uso para as mais diferentes áreas, como a saúde (em especial na indústria farmacêutica), a área financeira, telecomunicações, energia, logística, entre outras. A verdade é que ninguém sabe quando tal irá acontecer, disse Mário Caldeira: «Ainda não estamos propriamente lá e a questão é que podemos não estar muito longe». Yasser Omar explicou ainda que as tecnologias quânticas «podem demorar alguns anos a trazer resultados, já existem coisas comerciais, mas são muito incipientes», mas destacou que «há muita inovação e muitas startups a trabalhar na área» e que «quem tiver estas tecnologias vai ter uma vantagem estratégica e comercial» no futuro.

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