Anunciar despedimentos com base em expectativas futuras comporta riscos.
Pode gerar cinismo interno, comprometer o envolvimento dos trabalhadores e até obrigar a recuos embaraçosos com recontratações posteriores. Em vez disso, defendem os autores, as empresas deveriam concentrar-se em aplicações empresariais concretas de IA generativa, adoptar uma abordagem incremental a eventuais reduções de pessoal, iniciar esforços de redesenho de processos e clarificar o impacto positivo que pretendem alcançar com a tecnologia. «O que vemos no terreno não é substituição directa por IA, mas decisões preventivas de estrutura organizacional, em que empresas reduzem equipas para se prepararem para processos que ainda nem estão plenamente implementados», acrescentou Madalena Duarte. A conclusão é menos alarmista do que o discurso público sugere: embora seja provável que a IA venha a alterar o emprego, grande parte das decisões actuais parece assentar mais em expectativas estratégicas de longo prazo do que em resultados económicos já materializados. Ou seja, «na verdade, (ainda) ninguém faz ideia».
Uma certeza altamente incerta
Um estudo encomendado pela Comissão Europeia, assinado pelo economista e professor universitário Fabien Petit e integrado no relatório ‘The future employment impact of artificial intelligence and emerging digital technologies in Europe’, reforça a ideia de que o efeito da IA no emprego não segue trajectórias lineares nem uniformes. O documento, concluído em Novembro de 2025, projeta cenários até 2040 combinando dados de patentes tecnológicas, exposições sectoriais e projecções demográficas, e conclui que «as tecnologias digitais e a IA deverão ter um impacto líquido positivo no emprego europeu a longo prazo, embora a magnitude dos ganhos permaneça altamente incerta».
O relatório sublinha, porém, que os efeitos não serão homogéneos. Entre 2019 e 2040, o emprego total na Europa poderá aumentar entre 1,65 milhões e 28,8 milhões de postos de trabalho, dependendo do cenário tecnológico e demográfico considerado. Mas essa evolução agregada esconde dinâmicas distributivas profundas: «as mulheres e os trabalhadores altamente qualificados estão entre os principais beneficiários da digitalização, enquanto trabalhadores pouco qualificados e jovens enfrentam maiores riscos de deslocação».
A lógica subjacente é estrutural. Segundo o estudo, «a mudança tecnológica é fortemente enviesada para competências, deslocando trabalhadores pouco qualificados na maioria dos cenários», ao passo que trabalhadores em idade activa principal tendem a beneficiar de ganhos consistentes. Sem políticas activas de qualificação, alertam os autores, «a mudança tecnológica ampliará a desigualdade baseada em competências e agravará divisões intergeracionais».









