Perante este enquadramento, o economista Miguel Vilhena considera que «os dados sobre criação líquida de emprego, transformação de competências e reconfiguração salarial indicam não um choque de destruição laboral, mas uma transição estrutural de paradigma produtivo, na qual o emprego não desaparece, mas migra para sectores e funções com maior intensidade tecnológica e maior exigência de capital humano». Já do ponto de vista do recrutamento, Madalena Duarte, directora de recursos humanos, admite que o padrão já é visível. «As empresas não estão simplesmente a reduzir quadros, estão a substituir perfis generalistas por perfis híbridos com competências digitais, analíticas e operacionais».
Despedimentos já estavam decididos, não foi a IA
Uma análise publicada na Harvard Business Review acrescenta uma nota de prudência ao debate. No artigo, Thomas H. Davenport, professor distinguido de Tecnologias de Informação no Babson College e investigador visitante no MIT Initiative on the Digital Economy, e Laks Srinivasan, cofundador e CEO do Return on AI Institute e antigo COO da Opera Solutions, questionam se a Inteligência Artificial está efectivamente a substituir trabalhadores ou se está apenas a servir de explicação conveniente para reduções de quadros já decididas. Com base num inquérito a 1 006 executivos globais realizado em Dezembro de 2025, os autores concluem que a IA está por detrás de alguns despedimentos, mas quase sempre por antecipação do seu impacto futuro e não por ganhos de eficiência já comprovados.
As perdas de emprego e o abrandamento das contratações são reais, sublinham, embora muitas empresas ainda estejam à espera que a IA generativa entregue o valor prometido. Os dados revelam que 39% das organizações inquiridas realizaram reduções de pessoal baixas a moderadas em antecipação da IA e 21% procederam a cortes significativos, enquanto 29% estão simplesmente a contratar menos do que o habitual à espera de efeitos futuros. Apenas 2% associam grandes reduções a impactos efectivos já verificados. Ao mesmo tempo, 44% dos executivos admitem que a IA generativa é a tecnologia mais difícil de avaliar em termos de valor económico, apesar de 90% declararem estar a obter pelo menos valor moderado das suas iniciativas em IA.
«Quando decisões de emprego são tomadas com base em expectativas tecnológicas futuras e não em ganhos de produtividade já observados, estamos perante um ajustamento antecipatório típico de ciclos de inovação, que pode inflacionar artificialmente a percepção de disrupção laboral», reflecte Miguel Vilhena. Para os especialistas, o fenómeno pode ser, em parte, artificial. A IA executa tarefas específicas e não funções completas, e a tradução de ganhos individuais de produtividade — estimados nalguns casos entre 10% e 15% em áreas como a programação — em eficiência organizacional efectiva exige redesenho de processos, experimentação controlada e medição rigorosa, algo que poucas empresas fizeram de forma sistemática.









