Vamos começar por uma pergunta simples e curta: vai a Inteligência Artificial deixar-nos no desemprego? A resposta está longe de ser consensual e varia consoante a quem damos voz. Talvez por isso, a resposta mais honesta seja: «Na verdade, (ainda) ninguém faz ideia». Vamos por partes e dar a tal voz a quem tem dados e notoriedade no mercado. Entre os vários documentos, artigos de opinião e relatórios analisados pela businessIT, talvez esta opinião de Saadia Zahidi, managing director do World Economic Forum, seja a mais sensata. Diz ela, num artigo para a Time, que a IA está a transformar o mercado de trabalho global, impulsionando mudanças profundas nos requisitos de competências, nas profissões e na estrutura salarial, tanto em economias avançadas como emergentes. «As previsões sobre o impacto da IA no mercado de trabalho variam drasticamente: desde o deslocamento em massa de trabalhadores, passando por um renascimento da produtividade, até algo entre os dois extremos».
O Fórum Económico Mundial projeta que a criação de empregos superará as perdas no curto prazo. No entanto, essa transformação do mercado de trabalho, defende Saadia Zahidi, será complexa e desafiadora. «Navegar pela transição exigirá não apenas uma compreensão da inovação tecnológica, mas também esforços coordenados em políticas, educação e desenvolvimento da força de trabalho». No artigo de opinião, a especialista sublinha que essas previsões não levam em conta a relativa sofisticação e complexidade das economias. «Precisamos de olhar para além de como uma tecnologia específica pode substituir tarefas específicas e, em vez disso, concentrar-nos em construir resiliência que se possa adaptar a uma ampla gama de mudanças tecnológicas e globais».
A questão é que as tendências geoeconómicas podem impulsionar a trajectória dos mercados de trabalho em igual medida, se não maior, do que as mudanças tecnológicas. Saadia Zahidi explica que, à medida que o comércio e o investimento estrangeiro directo caem nos sectores intensivos em mão-de-obra, como infra-estruturas e manufactura tradicional — onde cada emprego directo normalmente cria 2,2 empregos indirectos —, «o futuro dos empregos possibilitados pela globalização é incerto». Senão, vejamos: números oficiais do governo britânico relativos ao ano fiscal de 2024-25 indicam que o número de empregos criados através do investimento estrangeiro directo recuou 3%, registando o nível mais baixo desde o início dos registos, há 18 anos. Já em Ciudad Juárez, no México, que faz fronteira com os Estados Unidos, a redução do comércio devido à incerteza tarifária levou a uma perda estimada de 64 mil empregos fabris entre 2023 e 2025.
«Ao mesmo tempo, a nova ordem multipolar e competitiva também está a criar novos booms geoeconómicos e, com eles, oportunidades de emprego totalmente novas: desde indústrias de defesa na Coreia do Sul, Turquia e Polónia e fabricação de chips na Malásia, até minerais críticos na Austrália e alimentos e agricultura no Brasil», lê-se no artigo assinado por Saadia Zahidi, que alerta que «nessas regiões, um novo conjunto de oportunidades de emprego atrairá talentos e criará efeitos multiplicadores em sectores adjacentes».









